Outsiders na Política Brasileira

Fernando Collor de Melo

 

​O termo de origem inglesa “outsider”, na política brasileira, procura designar aquele que se projeta como alguém fora do sistema político tradicional, apresentando-se como uma novidade no palanque eleitoral. O cientista político e pesquisador de renome internacional Andreas Schedler chegou a afirmar que “pequenez e marginalidade podem servir como equivalentes funcionais da novidade”.

​Ao contrário do que se costuma pensar, o surgimento de candidaturas tidas como outsiders na história política brasileira não se trata de eventos esporádicos, mas de um padrão no panorama político-eleitoral nacional. Na maioria das vezes, são personagens que se definem como “fora do sistema”, mas que carregam uma longa trajetória institucional. Na verdade, são figuras que se aproveitam da abertura de oportunidades conjunturais específicas para a escalada do voto antiestablishment. Geralmente, tratam-se de líderes populistas que se valem episodicamente do descontentamento público com a política e suas manifestações.

​Esses pretensos candidatos outsiders ganham destaque por meio do sistema partidário, passando a integrar agremiações novas ou recém-fundadas. Todavia, dedicam-se à mera troca de favores, perpetuando, na prática, a velha ordem que prometeram evitar. Fingindo negar a política, desvalorizam as instituições em que atuam e proferem discursos orientados a desacreditar os adversários, tratando-os como inimigos. Alimentam os confrontos políticos para deles se beneficiarem e, quando se sentem politicamente fortes, planejam uma reengenharia institucional. Via de regra, demonstram vocação para o autoritarismo.

​Os candidatos outsiders exploram escândalos de corrupção e apresentam a eleição como um momento de salvação coletiva. A retórica é a de quem se apresenta como um acontecimento extraordinário, necessário para romper com a situação vigente, vendendo a imagem de cidadãos íntegros e confiáveis. Quando eleitos, contudo, veem-se desconectados da máquina pública que deveriam liderar. Então, transformam-se, quase sempre, em promotores de situações que permitam manter-se no poder a qualquer custo, chegando a estimular o caos para justificar rupturas institucionais.

​Ao longo da história republicana brasileira, diferentes perfis ocuparam esse espaço, de “salvadores da pátria” a figuras folclóricas. É o caso de Jânio Quadros, que utilizava a famosa metáfora da vassoura para “varrer a bandalheira” e a corrupção do país, colocando-se acima dos partidos, o que culminou em uma presidência isolada e na sua abrupta renúncia em 1961. Anos mais tarde, surgiu Fernando Collor, o “Caçador de Marajás”, prometendo combater privilégios e modernizar o Estado contra os “políticos velhos e corruptos”. Mais recentemente, Jair Bolsonaro apoiou-se fortemente no uso das redes sociais e em um discurso frontal contra o sistema político, o pacto partidário tradicional e as pautas progressistas. Historicamente, essas trajetórias levaram o país à frustração.

​Esse cenário exige um estado de alerta constante em relação aos candidatos outsiders. Embora se vendam como “não políticos”, eles costumam trazer riscos e contradições latentes. A figura do “novo” é, muitas vezes, apenas uma estratégia de marketing bem construída, e não uma mudança real no panorama político. Além disso, a falta de experiência política e de articulação partidária dificulta a governabilidade, pois tais figuras tendem a oferecer soluções simplistas para problemas de alta complexidade.

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