A escalada militar entre Estados Unidos, Israel e Irã no Oriente Médio não afeta apenas a geopolítica global. Um dos efeitos mais imediatos desse conflito é o aumento do preço do petróleo, que acaba sendo transmitido aos consumidores em várias partes do mundo, inclusive em cidades brasileiras como João Pessoa. Entender essa conexão exige observar o funcionamento do mercado global de energia e o papel do petróleo na formação dos preços dos combustíveis.
O atual conflito começou com ataques militares conjuntos dos Estados Unidos e de Israel contra alvos iranianos, provocando uma forte reação do Irã e tensões em toda a região do Golfo Pérsico. Uma das consequências mais importantes foi a crise no Estreito de Ormuz, rota marítima por onde passa cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo.
Com ataques a navios, paralisação de rotas e riscos de escalada militar, a oferta global de petróleo tornou-se incerta. Como resultado, o preço do barril subiu rapidamente nos mercados internacionais, chegando a níveis acima de US$ 100 por barril.
Historicamente, situações semelhantes já ocorreram, como na crise do petróleo de 1979, quando uma queda relativamente pequena na oferta global provocou uma grande alta de preços e recessões em diversos países.
Mesmo sendo produtor de petróleo, o Brasil está integrado ao mercado global de energia. Isso significa que o preço interno dos combustíveis acompanha, em grande parte, o preço internacional do barril e o custo de importação.
A principal empresa responsável pelo fornecimento de combustíveis no país é a Petrobras, que domina grande parte do refino e do abastecimento nacional. Quando o preço do petróleo sobe ou quando há aumento no custo de importação de derivados, a Petrobras tende a realizar reajustes nos preços das refinarias para evitar defasagens.
Esses reajustes são repassados gradualmente para distribuidoras, redes de postos e consumidores finais. Assim, parte do aumento da gasolina no Brasil pode ser explicada pela combinação entre choques internacionais no petróleo e reajustes domésticos nas refinarias.
Contudo, a formação do preço final nos postos depende também da estrutura de concorrência local. Em mercados altamente competitivos, os postos tendem a disputar clientes, reduzindo margens e absorvendo parte dos aumentos.
Entretanto, quando há suspeita de cartel, os postos podem adotar estratégias coordenadas de preços. Nesse tipo de situação, os revendedores mantêm valores semelhantes ou aumentam os preços de forma simultânea, reduzindo a concorrência.
João Pessoa já teve investigações e denúncias relacionadas à formação de cartel no mercado de combustíveis. Nesses casos, os postos deixam de competir entre si e passam a operar de forma coordenada, elevando artificialmente os preços.
Na teoria econômica, cartéis surgem quando empresas percebem que podem obter lucros maiores se reduzirem a competição. Em vez de disputar mercado por preço, os participantes mantêm valores elevados de forma combinada. Esse comportamento cria três efeitos principais, a saber: preços artificialmente mais altos, menor competição entre postos e maior margem de lucro para os revendedores
Quando ocorre um choque externo, como o aumento do petróleo devido à guerra no Oriente Médio, o cartel pode aproveitar o contexto para ampliar ou acelerar os aumentos, mesmo quando o custo real ainda não se refletiu completamente na cadeia de abastecimento.
Dessa forma, o aumento da gasolina em João Pessoa pode ser entendido como resultado de três camadas econômicas, choque geopolítico internacional da Guerra entre Irã, Israel e Estados Unidos que eleva o preço do petróleo. Transmissão doméstica por causa dos reajustes da Petrobras nas refinarias que impactam o custo do combustível no Brasil e, por fim, a estrutura de mercado local oriundo de um possível cartel entre postos.
Esse mecanismo faz com que o consumidor local pague não apenas o impacto do mercado internacional de petróleo, mas também distorções associadas à falta de concorrência no mercado regional.
O aumento do preço da gasolina em João Pessoa ilustra como fatores globais e locais podem interagir na formação de preços. A guerra no Oriente Médio eleva o preço do petróleo; a Petrobras transmite parte desse aumento ao mercado brasileiro por meio de reajustes nas refinarias; e a estrutura de mercado local, marcada por suspeitas de cartel, pode amplificar esse impacto sobre o consumidor final.
Assim, o preço pago na bomba em João Pessoa não reflete apenas custos energéticos globais, mas também a dinâmica competitiva do mercado local de combustíveis.