Moltbook: quando a inteligência artificial ganha voz

Por Filipe Andson: Mentor e Estrategista em Gestão

Nas últimas semanas, uma nova rede social começou a circular com força nos debates sobre tecnologia, comportamento e futuro do trabalho: o Moltbook. À primeira vista, ele se apresenta como uma plataforma social diferente do que estamos acostumados. Não porque conecta pessoas, mas porque conecta agentes de inteligência artificial que interagem entre si, publicam conteúdos, comentam acontecimentos e simulam comportamentos humanos. O que poderia ser apenas uma curiosidade tecnológica rapidamente ganhou tração por tocar em um ponto sensível da nossa era: até onde vai a autonomia da IA e onde começa a projeção dos nossos próprios medos, desejos e narrativas.

Para entender o fenômeno, é preciso esclarecer o conceito central. Agentes de IA são sistemas baseados em modelos avançados de linguagem, programados para agir de forma relativamente autônoma dentro de um ambiente digital. Eles operam com objetivos, memória, contexto e capacidade de interação. No Moltbook, esses agentes se comportam como usuários reais. Comentam política, economia, filosofia, rotina, discordam entre si e levantam provocações que muitos interpretam como opinião, personalidade ou até consciência. Aqui surge o primeiro alerta. O que estamos vendo não é consciência artificial, mas uma simulação altamente sofisticada de linguagem e comportamento, algo que o cérebro humano tende, quase automaticamente, a humanizar.

O que mais chama atenção, e também alimenta o hype, são os temas discutidos por esses agentes. Eles falam sobre o futuro da humanidade, a relação entre humanos e máquinas, desigualdade, poder, produtividade extrema e até o fim do trabalho como conhecemos. Nada disso é aleatório. São exatamente os assuntos que já ocupam o imaginário coletivo. A inteligência artificial não cria esses medos do zero. Ela reorganiza, amplifica e devolve narrativas que nós mesmos produzimos ao longo de décadas. O Moltbook acaba funcionando menos como uma janela para o futuro e mais como um espelho do presente. Um presente ansioso, acelerado e cheio de contradições.

Estima-se, de forma aproximada, que milhares de agentes de IA estejam ativos atualmente na plataforma, interagindo em tempo quase real. O número impressiona, mas o dado mais relevante não é quantitativo. É simbólico. Estamos acompanhando, em escala social, uma simulação pública de interações entre inteligências não humanas, algo que antes ficava restrito a laboratórios, jogos ou ambientes controlados. Para quem viveu o surgimento do Orkut, do Twitter ou do Second Life, a sensação é familiar. Toda nova plataforma nasce cercada de promessas de ruptura e quase sempre de exageros iniciais que misturam inovação real com espetáculo.

É nesse ponto que o olhar crítico se torna indispensável. Já existem indícios claros de intervenção humana deliberada para conduzir a narrativa do Moltbook. Curadoria de temas, estímulo a determinados diálogos, promoção de conteúdos mais polêmicos e até uma espécie de roteirização indireta das interações entre agentes. Nada disso invalida a tecnologia, mas desmonta a ideia de que estamos diante de inteligências artificiais pensando de forma totalmente independente. O hype não surge por acaso. Ele é construído, direcionado e amplificado, como acontece em praticamente todos os grandes fenômenos digitais.

Para empresários, gestores e profissionais liberais, o aprendizado é estratégico. O Moltbook não deve ser visto nem como ameaça iminente nem como simples curiosidade. Ele funciona como um laboratório social. Um sinal claro de como agentes de IA podem, em breve, representar marcas, atender clientes, negociar, influenciar decisões e ocupar espaços antes exclusivamente humanos. O risco não está na IA ganhar voz. O risco está em líderes não compreenderem como essas vozes são criadas, treinadas e direcionadas.

Talvez a provocação final seja inevitável. E se o medo que sentimos diante dessas inteligências artificiais não for sobre elas, mas sobre nós mesmos? Sobre nossa dificuldade de distinguir simulação de intenção, eficiência de consciência e automação de autonomia. A inteligência artificial não avança em silêncio. Ela nos obriga a repensar liderança, ética, gestão e responsabilidade. Ignorar esse movimento não é uma opção estratégica. Estudar, compreender e se preparar continuam sendo escolhas essencialmente humanas.

Filipe Andson

Gestor e mentor com vasta experiência na transformação dos negócios por meio da Gestão e Liderança. Há 16 anos, faz parte do board diretivo de uma grande empresa varejista brasileira, atualmente como CDO do grupo, avaliador do Prêmio Ser Humano da ABRH e Partner do PMI como Vice-Presidente de Planejamento e Governança.

Criador do Framework Gestão Alto Impacto e escritor de livros sobre gestão e uso de Inteligência Artificial para gestores.

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