Por Filipe Andson: Mentor e Estrategista em Gestão
Na própria narração do filme, especialistas explicam que esse comportamento é raro e sem lógica aparente. O caminho escolhido não leva a comida, nem a abrigo, nem à sobrevivência. Ainda assim, ele vai. Sozinho. Diante da imensidão branca.
A internet apelidou a cena de “o pinguim niilista”. Talvez porque ela traduza, em silêncio, uma pergunta incômoda: por que alguém abandona a colônia mesmo sabendo que o caminho adiante é inseguro?
Quando vi esse vídeo, não pensei em natureza. Pensei em pessoas.
Em muitas organizações, profissionais já não se reconhecem mais na colônia. Estão fisicamente presentes, mas emocionalmente ausentes. Não se veem no discurso, não se conectam, não entendem mais o “porquê” do que fazem. E, quando isso acontece, algo se rompe por dentro.
O afastamento não é imediato. Começa pequeno. Um silêncio maior nas reuniões. Menos iniciativa. Menos brilho no olhar. Até que, um dia, a pessoa começa a caminhar para longe, às vezes sem rompimento, às vezes permanecendo apenas no corpo, não mais na alma.
É importante dizer: nem todo afastamento é fracasso. Nem todo desencontro é culpa. Assim como na vida, nas organizações também existe algo simples e verdadeiro: cada panela tem sua tampa. Em alguns momentos, o propósito da pessoa já não dialoga mais com o propósito da empresa. E isso é parte natural dos ciclos.
Valores organizacionais e valores individuais estão intimamente ligados às competências de cada profissional e ao contexto em que estão inseridos. Quando esse alinhamento se perde, insistir na permanência pode ser mais doloroso do que aceitar a mudança. Permanecer sem sentido também é uma forma silenciosa de adoecimento.
O mais curioso é que, assim como o pinguim, esse movimento raramente é racional. Não é sempre sobre remuneração. Nem sobre cargo. É sobre pertencimento. Sentido. Identidade.
Vivemos um choque geracional evidente dentro das empresas, algo amplamente discutido, inclusive, no elevado número de palestras sobre o tema na NRF 2026. Enquanto algumas lideranças ainda operam sob a lógica da obediência e da permanência, novas gerações buscam coerência, escuta, propósito e espaço para existir como são. Quando a cultura organizacional não acompanha essa transformação, a colônia deixa de ser abrigo e passa a ser ruído.
E ninguém permanece onde não se sente visto.
A escuta genuína e a construção em conjunto fortalecem o compromisso, o pertencimento e a criação de significado. São práticas profundamente humanas. Quando presentes, estabelecem elos fortes e acolhedores, capazes de potencializar resultados por meio da colaboração e da inovação que emergem naturalmente do ambiente da colônia.
Para gestores e empresários, talvez essa seja a reflexão mais delicada: muitas vezes, não estamos perdendo talentos para o mercado. Estamos permitindo que pessoas caminhem sozinhas para as montanhas internas da insegurança, da dúvida e da solidão profissional.
Não por maldade. Mas por falta de direção clara. Por valores escritos na parede e ignorados na prática. Por resultado que não constroem significado.
A cena na Antártida incomoda porque expõe algo que preferimos não encarar: nem todo afastamento é rebeldia. É uma caminhada silenciosa em busca de sentido.
E talvez a pergunta mais importante não seja por que ele foi para lá.
Mas por que a colônia deixou de ser um lugar para ficar.
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Filipe Andson
Gestor e mentor com vasta experiência na transformação dos negócios por meio da Gestão e Liderança. Há 16 anos, faz parte do board diretivo de uma grande empresa varejista brasileira, atualmente como CDO do grupo, avaliador do Prêmio Ser Humano da ABRH e Partner do PMI como Vice-Presidente de Planejamento e Governança.
Criador do Framework Gestão Alto Impacto e escritor de livros sobre gestão e uso de Inteligência Artificial para gestores.
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