No século XIX, a quantidade de africanos escravizados trazidos ao Brasil cresceu de forma significativa, especialmente na Bahia. Em Salvador, cerca de 40% da população era composta por escravizados africanos. Entre eles havia um grupo de muçulmanos, conhecidos como malês, que se organizou para lutar pela liberdade e contra a imposição do catolicismo.
Na madrugada de 25 de janeiro de 1835, esses africanos protagonizaram a maior revolta de escravizados da história do Brasil. Embora rapidamente reprimida, a insurreição abalou profundamente a elite escravocrata, provocando duras consequências sociais e políticas e levando ao endurecimento do controle sobre a população africana. Havia o temor de que, no Brasil, se repetisse uma rebelião nos moldes da Revolução Haitiana, iniciada em 1790 por escravizados e que culminou com a independência do Haiti, em 1804.
A Revolta dos Malês evidenciou o potencial de contestação e rebeldia inerente à manutenção do regime escravista. Estima-se que cerca de 600 africanos tenham participado do movimento. O historiador baiano João José Reis calcula que mais de 70 deles morreram nos confrontos e que aproximadamente 500 foram punidos com penas que incluíam morte, prisão ou deportação. As forças repressoras sofreram a baixa de nove mortos, em um combate que durou mais de três horas e deixou Salvador em estado de pânico. Cerca de duzentos escravizados foram levados aos tribunais, recebendo condenações que variavam entre pena de morte, trabalhos forçados, degredo e açoites.
O clima antiafricano instaurado após o movimento alcançou tamanha gravidade que, em 30 de abril de 1835, um deputado apresentou à Assembleia Legislativa da Província da Bahia uma proposta sugerindo que “o governo provincial expulsasse para fora do Império, com a maior brevidade possível e ainda à custa da Fazenda Pública, os africanos forros de um e outro sexo que se fizessem suspeitos de promover a insurreição de escravos”.
Alfabetizados em árabe, os malês reuniam-se secretamente na Sociedade Protetora dos Desvalidos. Usavam vestes brancas (abadás), amuletos com passagens do Alcorão e anéis de metal. Promoviam arrecadação de recursos para a compra de armas, e seus planos eram redigidos em árabe. No entanto, esses escritos foram descobertos e denunciados. Segundo João José Reis, pretendiam transformar a Bahia em uma nação controlada por africanos, sob a liderança dos muçulmanos.
Mesmo após mais de 190 anos, a Revolta dos Malês permanece como tema de estudos acadêmicos, livros, produções cinematográficas e manifestações culturais, sendo lembrada inclusive em blocos carnavalescos da Bahia. Em 2024, estreou nos cinemas brasileiros o longa-metragem Malês, dirigido por Antônio Pitanga, que retrata a história da insurreição. O sociólogo Clóvis Moura registra o clima de apreensão vivido pela elite escravocrata da época:
“Quem examina a documentação desse período da nossa história encontra, como uma constante, o medo dessas classes diante do grande número de escravos e da sua possível consciência da exploração a que estavam sujeitos”.
A Revolta dos Malês foi o maior levante urbano de escravizados nas Américas, evidenciando a resistência organizada e o profundo desejo de liberdade dos africanos. A sedição conduzida por negros muçulmanos agitou a Bahia na primeira metade do século XIX e espalhou temor por todo o Império.
Rui Leitao