Na década de 60, ao formular caminhos de desenvolvimento econômico para o
Nordeste e ao insistir na continuidade de políticas públicas, Celso Furtado apontava
uma evidência simples: a subsistência do homem humilde, do povo trabalhador,
daqueles que iniciam o processo produtivo, estava nas mãos. E a mão estava, de fato,
perfeitamente correta, eles eram artesãos e artífices continuadores de saberes.
Em diferentes contextos históricos, o trabalho manual e os ofícios foram parte
decisiva da organização da vida material: fabricar, consertar, adaptar, manter. É nesse
sentido que enfatizo a mão aqui como tecnologia antiga, aprendida na repetição e no
erro corrigido: aprende, erra, ajusta, repete, melhora. Ela liga o ato de fazer a um
conhecimento prático, transmitido por convivência, observação e treino, e que não se
improvisa por decreto nem por pressa.
Quando se fala em artesanias e artífices, não se trata de nostalgia. Trata-se de
base produtiva, de uma pedagogia concreta do trabalho e de um tipo de inteligência
que não cabe em slogan. O couro, a madeira, os fios, o barro, o metal: tudo isso pede
olho, precisão, paciência e método.
O que se constrói com as mãos, com tempo e atenção, não é “atraso”; é formação.
Só que, no discurso oficial, essa formação costuma virar enfeite: serve para foto, para
folder e feiras. E o que sobra é a pergunta; Quem vai continuar os trabalhos dos mestres
e mestras?
Eu me surpreendo nas caminhadas do cotidiano, pelos meandros da cidade, nessa
busca curiosa de percorrer espaços, perceber e desenhar cenário. A curiosidade não me
aquieta. Entro numa oficina e começo a olhar em volta: não vi nenhum jovem
lanterneiro. E não é por romantismo, mas porque o vazio grita e chama a atenção.
Lanternagem e funilaria são atividades que a oficina exige com as mãos, com os
olhos atentos, e com a percepção da maestria que só o tempo define. Não há atalho parao gesto certo, para a correção da forma, para a mudança do perfil da lataria até “virar
carro” de novo.
O TEMPO DA MÃO NÃO OBEDECE AO TEMPO DA PRESSA.
Perguntei ao Mestre lanterneiro Alexandre, com a simplicidade de quem quer
confirmar o óbvio. Você não tem jovens aprendizes? Ele respondeu com uma aposta
que, ao mesmo tempo, é piada e diagnóstico: “Durval, se você percorrer 10 oficinas
aqui na Torre e encontrar, entre as 10 oficinas, três jovens com menos de 20 anos
atuando como aprendizes de lanterneiro, de funilaria ou de pintor, eu lhe dou um
desconto substancial no seu carro.”
Eu fiquei olhando para Alexandre. A frase, dita com humor, tem o peso de uma
certidão. As oficinas também envelhecem em silêncio, enquanto a política pública
finge que não é com ela. Quem vai a feiras de artesanatos também confirma o fato.
BREVEMENTE NÃO TEREMOS RENDEIRAS NEM MARCENEIROS.
E Alexandre, com 46 anos, disse que estava ficando velho. Eu olhei e pensei:
velho não é a idade, com descaso e etarismo é o sistema que não repõe gente no
mercado de trabalho. Ele falou como quem mede o fim do ofício pela ausência de
corpos jovens: “Não vejo mais ninguém de 18 a 23 anos aprendendo. Eu não posso
pegar mais carro porque meu tempo é o de fazer com as mãos. E o tempo de fazer com
as mãos não é um tempo de máquina. Eu preciso de atenção e cuidado para o meu
trabalho ser reconhecido, para o meu trabalho ter mérito.”
É uma ética do fazer, mas também é uma economia do limite:
QUANDO NÃO HÁ APRENDIZES, O OFÍCIO ENCURTA, ACABA.
Enquanto isso, o mercado segue. Há mais carros, mais circulação e mais
necessidade potencial de reparo, mas a reposição de mão de obra qualificada não
acompanha esse ritmo.
O resultado, observado no dia a dia das oficinas, é um paradoxo prático: com
demanda possível em alta, falta gente habilitada para atender com qualidade e no tempocorreto do ofício. Modernidade, aqui, não é acelerar. Seria ou deveria ser conseguir
manter competência onde ela é indispensável.
Sem formação consistente, o que tende a crescer não é o serviço bem-feito, mas
a precarização: improviso, retrabalho, desperdício e descarte prematuro. Em muitos
ambientes de consumo, o conserto perde espaço para a troca rápida, e isso empurra o
futuro para mais sucata e menos durabilidade.
O artesão some, o artífice se aposenta por exaustão, e o sistema, que depende
deles, segue fingindo que não depende, uma cegueira administrada como se fosse
eficiência. Completaremos 23 anos de Gestão pública sem Oficinas Escolas de
Rendeiras, Marceneiros, Pintores, Lanterneiros, Pedreiros senhores artífices e artesão
em Artesanato, e dos fazeres das mãos.
A política pública tem que impactar presencialmente, gente ouvindo gente, um
ouvido aprendendo com o outro. Não é um edital genérico, nem um curso relâmpago
para cumprir tabela. Não são projetos eólicos de eventos, mas programas de médio e
longo prazo não para suprir o mercado mas para preservar os ofícios.
O QUE FALTA É POLÍTICA INTEGRADA DE DESENVOLVIMENTO REGIONAL, COM CONTINUIDADE E AVALIAÇÃO DE ENTRAVES.
Falta entender que a transmissão do saber de ofício depende de ambiente, rotina,
orientação, prática, constância e continuidade. E isso tem nome e forma: Oficinas
Escolas de Ofícios. Sem elas, o aprendiz vira exceção. Na perspectiva de criação elas
viram políticas.
A ausência de Oficinas Escolas não é só falta de prédio. É falta de método
público para reconhecer o tempo do aprender. É negligência diante do envelhecimento
do artesão e da ruptura geracional. É a recusa em encarar os entraves reais: horários,
transporte, renda do aprendiz, remuneração do mestre, segurança do ambiente,
certificação, relação com mercado local.
A pandemia de COVID alterou rotinas e intensificou a presença das telas no
cotidiano. Em muitos casos, o tempo de convivência presencial e de aprendizagemprática foi comprimido, e a atenção passou a ser disputada por fluxos rápidos de
informação e estímulo.
O OFÍCIO, AO CONTRÁRIO, ENSINA PACIÊNCIA, ERRO, REPETIÇÃO E RESPONSABILIDADE.
A lógica das redes costuma favorecer o comentário rápido; a lógica da oficina
favorece o gesto bem-feito. É um conflito de tempos. E, quando políticas públicas não
estruturam transições, não sustentam formação e não valorizam a transmissão de
saberes, a consequência aparece sem alarde: o mestre envelhece, o aprendiz não chega,
e o país aplaude o vazio como se fosse modernização.
Hoje, o que vejo são fragmentos de rede: discussões entre pessoas que não se
conhecem, ruído em escala e uma agressividade que se apresenta como participação. É
muita fala e pouca prática. Muita opinião e pouca mão. E, sem mão, sem gente formada
para fazer, manter e reparar, a economia local não sustenta o que diz valorizar, porque
valor sem aprendizagem vira só discurso: bonito na tela, inútil na oficina.
Se o público percebe o envelhecimento dos artesãos, então percebe também a
pergunta que governa tudo: quem assume quando eles param? A resposta não virá de
campanhas bonitas, nem de promessas soltas.
Virá de política integrada, repetindo… com Oficinas Escolas de Ofícios, com
continuidade, com avaliação de entraves e com reconhecimento do mestre e do
aprendiz como parte da infraestrutura do desenvolvimento.
Sem isso, o “desenvolvimento sustentado” vira apenas um modo elegante de
descrever a continuidade do descaso. E, nesse caso, o sistema até pode continuar
“funcionando”.
SÓ NÃO TERÁ MAIS QUEM SAIBA CONSERTAR O QUE ELE MESMO DESTRÓI