Ramalho Leite: lembrando do esquecido “Perereca”

(Foto: Reprodução)

Decorridos mais de trinta anos da partida de Edivaldo Fernandes Motta, ainda hoje, quando ocasionalmente reunimos os antigos companheiros de sua época, ele é lembrado e reverenciado, quer pela sua luta permanente na defesa da região sertaneja, quer pelas suas peripécias e irônicas tiradas de humor que só aumentavam o carinho que todos lhe dedicavam.

As postagens da Fundação Miguel Motta, uma criação do estimado “perereca”, fizeram-me recordar, com saudade, o companheiro de Assembleia e depois da Câmara dos Deputados que conheci secretario do prefeito Zé Cavalcanti e através dos telegramas que me mandava para “A União”, dando noticia dos passos do líder popular patoense. Nas duas Casas chegou primeiro do que eu. Na oposição a Ernani Satyro, como rebelde da ARENA, o partido oficial, juntou-se a Waldir dos Santos Lima e Eilzo Mattos e fundaram o que a imprensa chamou de “tupamaros” numa alusão aos rebeldes uruguaios seguidores de Mojica. No governo, éramos inseparáveis: eu, Orlando Almeida e ele.

Na sua disputa por uma vaga na Assembleia Nacional Constituinte fizemos “dobradinha” em alguns municípios e ele tornou-se um dos assinantes da nova Constituição do Brasil. Quando seu neto, atual presidente da Câmara Hugo Motta tomou posse, declarou: …”nesta cadeira de Ulisses, às vésperas de completarmos quatro décadas do fato, em homenagem a todos os presentes, aos brasileiros, à democracia, ao respeito às instituições, faço questão de relembrar o gesto histórico de Ulisses ao promulgar a Constituição que juramos respeitar: viva a democracia! Viva a democracia! Viva a democracia!” E exibiu A Carta Cidadã.

E acrescentou o rebento dos Motta: “No meu quarto mandato, venho da minha amada Paraíba e da minha amada Patos, a minha terra que é o meu barro. Minha família me moldou e me forjou.: meu pai, Nabor, e minha mãe, Ilana. A minha grande referencia de vida, minha avó, uma guerreira, Francisca Motta (palmas) a minha felicidade de fazer você feliz neste momento. Eu sou a flecha que um dia você lançou”. Esqueceu o orador de citar um nome que estava escrito um pouco acima do de Ulisses, obedecendo-se à ordem alfabética: o deputado constituinte Edivaldo Motta, seu avô, que lhe cedeu a cadeira no Parlamento.

Mas para falar sobre Edivaldo Motta, “o perereca”, esquecido no discurso, temos que lembrar uma de suas aventuras. Nos anos oitenta, um jornalista de Patos me conferiu uma medalha. Edivaldo insistiu que eu não poderia faltar ao evento. Todavia, eu tinha um compromisso no interior. Estava plantando cana no engenho da família e precisava pagar meus trabalhadores ansiosos para ir à feira de Borborema, no domingo. – Eu vou com você, decidiu. E fizemos um périplo pelo brejo, passamos por Campina Grande e chegamos ao calor de quarenta graus em Patos.

Chegamos no Engenho Poço Escuro e o pátio da Casa Grande fervilhada de homens e mulheres à minha espera. Entrei na casa para iniciar o pagamento e deixei Edivaldo sozinho conversando com os agricultores. Era onde se sentia bem. Dialogar com os humildes era uma tarefa que o alegrava. Dizia até que aprendia com eles.

Terminadas as minhas obrigações, sai para reiniciarmos a viagem em direção a Patos. Do lado de fora, um silencio respeitoso. Ao lado da casa havia em escola. Edivaldo pediu um caderno a alguém, sentou-se à mesa do professor e gritou para os meus moradores: Façam fila que o doutor vai atender a todos. E começou a receitá-los. Só remédios para gripe e verme. Tive que encerrar a transformação momentânea de uma escola em posto de saúde.

Convém lembrar que Edivaldo Motta era bacharel em direito, formado pela antiga Universidade Autônoma de João Pessoa. Um “caba” desses não merece ser lembrado?

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