Estava no exercício de meu primeiro mandato de deputado estadual iniciado em 1975. Avistei, no Plenário da Assembleia, um jovem simpático, bem alinhado, basta cabeleira e que se movimentava entre os servidores da casa com desenvoltura de um íntimo do Parlamento. Indaguei de quem se tratava. A resposta teria uma duração provisória: é um sobrinho do deputado Milanez. Em pouco tempo, ele demonstrou que a ligação familiar nada tinha a ver com sua presença naquele recinto.
Começou a escrever nos jornais, a se movimentar na sociedade e a ser respeitado pelas opiniões e conceitos que emitia em coluna diária do jornal O Momento. Alguns anos mais tarde, depois de enveredar por outros periódicos, se alguém perguntasse quem era aquele jovem, a resposta seria outra: Milanez é tio dele! O deputado sentia orgulho do seu sobrinho por afinidade e a recíproca era verdadeira.
Jurema Filho, Abelardo Filho ou simplesmente Abelardinho, construiu sua própria caminhada e hoje, dobrando a casa dos setenta, é membro da Academia Paraibana de Letras, publicou vários livros e faz sucesso em qualquer veículo midiático. Mas, na verdade, o que mais o envaidece é exercer a presidência do P. A.- Partido dos Amigos, fundado pelo imortal Abelardo de Araújo Jurema. É sobre a odisseia desse saudoso Abelardo, o sênior, prefeito, deputado, senador, ministro e exilado, que trata o livro “CESÁRIO ALVIM 27, Histórias do filho de um exilado” em sua terceira edição. A publicação coincide com os 70 anos de fundação da UFPB e se insere na homenagem que se presta aos seus beneméritos, entre os quais o então deputado Abelardo Jurema, Líder do Governo JK e timoneiro da batalha que culminou com a federalização da nossa principal universidade.
A bibliografia de exilados enriquece muitas bibliotecas, houve até quem contasse o padecimento nos cárceres políticos, a exemplo de Graciliano Ramos. O singular, porém, como destaca o imortal Murilo de Melo Filho, nosso vizinho do norte, é que “estas são as primeiras memórias escritas pelo filho de um exilado e que, por isso mesmo, ai estão todos os detalhes de uma veraz autenticidade”.
O autor vai buscar na memória de um menino de 12 anos, os acontecimentos que resultaram na destituição de seu pai do Ministério da Justiça de João Goulart, seu asilo político na Embaixada do Peru e consequente exílio em Lima. A partir de então, usando nome fictício, o ex-ministro fez de tudo para sobreviver em uma terra estranha, trabalhando no comercio de charutos ou de farinha de peixe, movido por um combustível de muita força que se chama saudade: dos seus entes queridos, da sua terra e da vida que lhe roubaram.
Ressalto que foi Jurema, o único que ofereceu sua voz e sua coragem em solidariedade ao Presidente acossado pelos militares e, pelo radio, tentou manter de pé um governo derrubado cujo chefe já se despedira do poder em direção a um refúgio seguro. Anistiado, foi também o único a procurar a reconciliação com seus algozes. Pediu audiência e foi recebido pelo Presidente Figueiredo, a quem apertou a mão e reconheceu o caminho que, com a anistia quase ampla, geral e irrestrita, se abriria para um Brasil novo.
Abelardo Jurema Filho que, a princípio, temeu a responsabilidade do nome que carrega, tem uma coluna que todo mundo lê e soma cinquenta anos de publicação ininterrupta, um feito inédito no Brasil. Pelo caminho que percorreu, os obstáculos que venceu e os sucessos alcançados, fez jus à herança paterna. Irrequieto, mesmo setentão, Abelardo investe em outras novidades. Não se conforma, apenas, com a internet ou a televisão. Ingressou no podcast. Faz sucesso onde bota a mão. Um midas da mídia.
Seu livro é o registro do seu padecimento, de seus irmãos e de sua mãe, órfãos e viúva de um pai e marido vivo. Todos com força e coragem para construir um renascimento que os orgulha e enaltece, ao tempo em que nos encanta e emociona.
