Lições do Não da Grécia

Saudemos a Grécia, pelo Não à ruína que lhe fora imposta pela insânia financeira da Europa. O povo grego, mesmo coagido ao desastre econômico, demonstrou altivez. Os credores ficaram horrorizados com tamanha insubordinação. É claro que eles queriam ouvir a sentença latina comum aos cativos levados à morte pelos imperadores da antiga Roma: “Ave Caezar, morituri te salutant” (Ave César, aqueles que estão prestes a morrer o saúdam).

A Grécia tem uma dívida de €323 bilhões com vários países e bancos da Europa, mas a Alemanha é a grande credora, seguida da França e Itália. No final de junho, Atenas deixou de pagar uma parcela de €1,5 bilhão e indicou que também não iria pagar os €3,5 bilhões devidos ao Banco Central Europeu (BCE), em 20 de julho.

O governo grego tinha pedido um empréstimo de €30 bilhões, para sair da crise financeira. As duras condições de austeridade fiscal impostas para o atendimento levariam o país ao caos. A decisão do povo grego, domingo 04.07.15, foi um Não com plena legitimação democrática aos sacrifícios que os europeus querem impor à Grécia.

De 2010 a 2014, o FMI e a União Europeia emprestaram €240 bilhões à Grécia, obrigando-a a adotar políticas austeras. Houve êxito fiscal-monetário: o déficit público caiu de 11,0% para 3,5% do PIB e a inflação de 4,7% para uma deflação de -1,4%. Os resultados econômicos foram terríveis: o PIB caiu -22% e o desemprego cresceu de 15% para 26%. A dívida pública passou de 148% para 177% do PIB, devido à queda do PIB.

O BCE, o FMI e a Comissão Europeia (CE), mentores e auditores dos caminhos a seguir pela Grécia, exigiam um déficit público de 1,3% a 1,6% do PIB. Esses órgãos representam os credores e têm dificuldades para não enquadrar a Grécia por descumprimento de acordo. A concessão de novos benefícios exige uma superausteridade e, certamente, mais recessão, desemprego e convulsão social.

A austeridade grega, que já reduziu muito o déficit público e a inflação, esgotou os seus limites. A Grécia precisa de uma recuperação real, a partir da renegociação com os credores, sua continuidade na Zona do Euro e metas fiscais que permitam sua economia crescer e gerar empregos. Só assim poderá honrar seus compromissos financeiros.

Há graves problemas emergenciais a resolver. Com as negociações em andamento e sem contar com os fundos de emergência do BCE, a Grécia teve que fechar os bancos e limitar os saques a €60/dia. Os bancos gregos não têm recursos para ir longe, o colapso é iminente. Não há razão plausível para o BCE não liberar os referidos fundos.

A Troika europeia, formada pelo BCE, FMI e CE, sabe que o malogro financeiro da Grécia pode acender o estopim da bomba à frágil e claudicante recuperação econômica da Europa. Os seus efeitos negativos podem anular os benefícios econômicos esperados da mega expansão monetária de €1,0 trilhão, jan/2015 a set/2016, programada pelo BCE.

A dívida grega vem de empréstimos aprovados pela Troika, que acompanhou o uso dos recursos. Se há erros, foram compartilhados. A renúncia da Grécia ao excesso de austeridade não significa aderir à irresponsabilidade fiscal e sim à prosperidade. Ajuste fiscal sem recessão é o problema que a Europa tem que aprender a resolver.

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