AVE ARIANO SUASSUNA

A morte de Ariano Suassuna deixa uma eterna lacuna na cultura brasileira. O mundo perdeu um grande talento, da dimensão de outros paraibanos geniais: Pedro Américo, Augusto dos Anjos, José Lins do Rego, Assis Chateaubriand, José Siqueira, José Américo de Almeida e Celso Furtado. Assim como estes, Ariano compõe o seleto grupo dos artífices exponenciais da verdadeira grandeza da pequena Paraíba. Os seus primorosos legados terão vida muito longa, nas artes, na literatura, no mundo dos negócios e nas ciências sociais.

É difícil saber, entre os Arianos, se foi o dramaturgo, o romancista, o poeta, o professor ou o pesquisador da cultura brasileira e universal, quem brilhou mais. Havia, porém, como denominador comum, um Ariano Suassuna atemporal. Uma espécie de ser humano composto do menino de Taperoá, do adolescente do Recife e do homem que aí se tornou um refinado intelectual e cidadão do Brasil e do mundo. A paixão foi a força motivadora do que fez e das causas que defendeu, na vida cultural, social, econômica e política brasileira.

A obra de Ariano é uma formidável e bem fundamentada denúncia crítica dos dois Brasis seculares: o Brasil oficial e o Brasil real. Este, o país dos índios, negros e pobres em geral, com sua capacidade criativa submetida. Aquele, o país das elites dominantes, promotor e beneficiário da cisão nacional.

Nessa nação divida, havia imensos conjuntos de visões, necessidades, manifestações e anseios opostos, em áreas essenciais da vida humana organizada: na cultura, nas artes, na economia, na justiça, na educação, na saúde… A história demonstrava a prevalência das vontades e verdades dos poderosos e a manutenção da cisão entre o Brasil real e o Brasil oficial.

Ariano era esperançoso, quanto à construção de uma verdadeira nação brasileira. Ele foi o nosso Dom Quixote contemporâneo, mas consciente da contundência das forças que enfrentava. Até porque sabia que o sucesso dessa luta envolvia o abrandamento do inferno interior de cada um de nós, que compomos as classes privilegiadas. Sem isto, dificilmente o Brasil oficial se tornaria expressão do Brasil real.

Ariano Suassuna deu uma enorme contribuição para a construção da identidade cultural brasileira. A sua vida foi uma luta constante por essa causa, dedicando-lhe todo o seu elevado espírito criativo, polêmico, radical, irreverente e crítico, lucidamente angustiado e risivelmente sério.

Dois aspectos singulares formaram a base comum da obra de Ariano: a) o bem-sucedido esforço de torná-la genuinamente popular e b) a convicção de como deve ser o futuro da nossa Pátria: Uma nação na qual a cisão atual seja substituída pela indispensável identificação e onde, pela primeira vez em nossa atormentada História, o Brasil oficial se torne expressão do Brasil real.
 

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