Gilberto Gil na música “Procissão”, lançada em 1965, explora a teoria marxista de que a religião é o ópio do povo, fator de alienação dos menos esclarecidos que se apegam na fé para ter esperança de dias melhores. O título da canção refere-se a um evento da Igreja Católica Romana em que os devotos participam de um cortejo em veneração a um santo, muito comum, principalmente, nas cidades nordestinas.
“Olha lá vai passando a procissão/Se arrastando que nem cobra pelo chão/As pessoas que nela vão passando/Acreditam nas coisas lá do céu/As mulheres cantando tiram versos/E os homens escutando tiram o chapéu”. O compositor registra a passagem de uma procissão no interior nordestino. Caminhantes fazendo um percurso pelas ruas da cidade, professando sua crença na doutrina pregada pela religião. As mulheres entoando cânticos de louvor e os homens, calados, em reverência, tirando o chapéu. Comportamento típico de devotos sertanejos.
“Eles vivem penando aqui na terra/Esperando o que Jesus prometeu/E Jesus prometeu coisa melhor/Pra quem vive nesse mundo sem amor/Só depois de entregar o corpo ao chão/Só depois de morrer neste sertão”. Gil começa a fazer a sua crítica social ao dizer que os penitentes são indivíduos que vivem sofrendo as adversidades da vida, as agruras da seca e do abandono pelos poderes públicos. Mas resta neles a confiança de que dos céus advirá à redenção prometida por Jesus. Contritos e resignados com a situação de miséria em que vivem, sabem que ao morrer receberão as benesses divinas. Se na terra é só padecimento, no outro plano da vida será um paraíso.
“Eu também tô do lado de Jesus/Só que acho que ele se esqueceu/De dizer que na terra a gente tem/De arranjar um jeitinho pra viver”. Reconhecendo a pregação cristã de vida melhor após a morte; o compositor faz a ressalva de que falta, a essas pessoas que participam da procissão, o entendimento de que aqui na terra temos que buscar nosso meio de sobrevivência, e não ficar unicamente a espera da providência de Deus. Quer dizer com isso que não se deve ficar na aceitação dos fatos sem reação, inertes sem lutar, sem brigar, sem reivindicar justiça social e condições dignas de viver.
“Muita gente se arvora a ser Deus/E promete tanta coisa pro sertão/Que vai dar um vestido pra Maria/E promete um roçado pro João/Entra ano e sai ano e nada vem/Meu sertão continua ao deus- dará/Mas se existe Jesus no firmamento/Cá na terra isso tem que se acabar”. Finaliza Gil atacando as falsas promessas dos políticos, aqueles que se julgam os poderosos, os salvadores, semideuses. Aproveitam-se da boa fé dos pobres para tirarem proveito próprio. E isso acontece repetidas vezes ao passar do tempo e nada muda. Na prática o interesse das classes dominantes é manter esse “status quo”. Sobra ao povo sofrido do sertão a esperança de que Jesus, como divindade, possa se compadecer e por um fim nesse penar.
• Integra a série de crônicas “PENSANDO ATRAVÉS DA MÚSICA”.