As músicas do paraense Ary Lobo guardam semelhança com o estilo do paraibano Jackson do Pandeiro. No início da década de sessenta, em parceria com Luiz de França, compôs “Eu vou pra lua”, uma forma bem humorada de dizer o quanto estava decepcionado com a vida na terra, onde a humanidade alcançava um estágio de atitudes que produzia tristeza, padecimentos, preocupações, fome, corrupção, guerra. O melhor seria sonhar com um mundo melhor, quem sabe na lua.
“Eu vou prá lua/Eu vou morar lá/Sair no meu Sputnik/Do Campo do Jiquiá”. O desejo de ir embora à procura de um lugar onde pudesse viver melhor. Na sua fantasia olhava para a lua como a sua futura moradia. Imaginava-se partindo num Sputnik, que era o foguete russo que levou ao espaço o primeiro satélite científico. Partiria do Campo do Jiquiá, localizado na periferia de Recife, onde foi construído, em 1930, a Torre do Zeppelin para atracação de dirigíveis.
“Já estou enjoado aqui da terra/Onde o povo a pulso faz regime/A indústria do roubo, a fome, o crime/Onde os preços aumentam todo dia”. Escrito há mais de cinquenta anos a situação não é muito diferente da de hoje. Gente morrendo de fome, “fazendo regime à força por falta do que comer”, os ladrões atuando impunemente, sejam os larápios comuns ou os de “colarinho branco”, a inflação penalizando os assalariados, o crime proliferando com o aumento da violência urbana. Tudo isso fazia com que o personagem da música se sentisse “enjoado” do mundo em que vivia.
“O progresso daqui, a carestia/Não adianta mais se fazer crítica/Ninguém acredita na política/Onde o povo só vive em agonia”. O registro da desesperança e do desânimo fazia com que se tornasse alienado, porque achava que de nada adiantava ficar fazendo críticas. A política, já naquele tempo, caía no descrédito. O povo vivia em permanente agonia.
“Na lua não tem nome abreviado/IPSEP, IPASE, nem CASEP/Nem IPEV, nem CPMF/Nem contrabando de mercadoria”. Satiriza as instituições constituídas por governos, onde a burocracia, ao invés de facilitar, complicava a vida dos cidadãos. Zomba com o fato da identidade pessoal passar a ser através de um número, o CPF. Sonha com um lugar onde os negócios sejam lícitos, não haja contrabando de mercadorias.
“Lá não falta água/Não falta energia/Não falta hospital/Não falta escola/É fuzilado lá quem come bola/E morre na rua quem faz anarquia”. No seu devaneio pensa no lugar ideal para viver, com a alimentação indispensável para não passar fome, água que sacie a sede, políticas de saúde e educação de qualidade para todos, sem distinção de classe social. Cobra punição exemplar para os que se deixam subornar, fazem da corrupção uma prática. Combate a anarquia, a falta de ordem, a desorganização, os desgovernos.
“Lá não tem juventude transviada/Os rapazes de lá não têm malícia/Quando há casamento é na polícia/A moça é quem é sentenciada/Porventura, se a mulher for casada/E enganar o marido, a coisa é feia/Ela pega dez anos de cadeia/E o conquistador não sofre nada”. Esta parte da letra da música reflete um pensamento da época, onde os paradigmas eram outros. Censura o comportamento da “juventude transviada”, como eram chamados os jovens que se entregavam à orgia e às drogas. Queria uma mocidade de boa índole, sem maldade. Entendia que os casamentos, realizados por obrigação, não poderia ser atribuída a culpa da motivação unicamente ao homem, pois se houve descumprimento de regras sociais e morais, a responsabilidade também era dela. E, por fim, defende rigidez na aplicação de punição à mulher infiel. Claro que tudo isso é o pensamento próprio de uma época, numa concepção um tanto machista. Hoje os conceitos a respeito são outros.
• Integra a série de crônicas “PENSANDO ATRAVÉS DA MÚSICA”.