“O samba do crioulo doido”

 

O jornalista e humorista Sérgio Porto fazia suas críticas e protestos usando o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta. Em 1968 resolveu, com fino humor, satirizar a decisão da Prefeitura do Rio de Janeiro que obrigava, em todos os enredos das escolas de samba, a alusão de fatos e personagens da nossa história. Era a forma do sistema de governo, ditadura militar, impor no brasileiro uma consciência cívica de amor à pátria na forma que desejavam. Surgiu então a paródia “Samba do crioulo doido”, escrito para fazer parte do espetáculo musical Show “Pussy Pussy Cats”.

A letra do samba, propositadamente, mistura personalidades e acontecimentos da nossa história, de épocas distintas, numa absurda contextualização da nossa memória política. Mas trazem nessa confusão cronológica e de fatos, algumas mensagens de críticas. A partir de então a expressão “samba do crioulo doido” passou a significar algo que está bagunçado, onde ninguém se entende, sem ordem, sem consciência do que está fazendo. Na política nacional é muito comum classificar assim governos que se perdem nas suas ações administrativas, revelando-se desastrados nas suas decisões, sob o efeito do caos instalado.

“Este é o samba do crioulo doido. A história de um compositor que durante muitos anos obedeceu o regulamento. E só fez samba sobre a história do Brasil. E tome de inconfidência, abolição, proclamação, chica da silva, e o coitado do crioulo tendo que aprender tudo isso para o enredo da escola. Até que no ano passado escolheram um tema complicado: a atual conjuntura. Aí o crioulo endoidou de vez e saiu este samba:” Inicia com a locução de um apresentador utilizando-se da linguagem de um profissional do rádio, fazendo o anúncio do samba enredo. Narra a situação de desespero, em que se viu envolvido o compositor da escola de samba, quando tomou conhecimento do tema que deveria abordar. Sem entender o que significava “conjuntura atual”, decidiu criar um enredo em que fossem citadas figuras proeminentes da nossa história, desde o império até a época da ditadura em que vivia. Além de registrar acontecimentos diversos que estão relatados nos nossos compêndios históricos. O resultado foi essa estapafúrdia narrativa, com inversão da ordem cronológica dos fatos e seus personagens. Na Paraíba algo parecido acontece com os versos de Zé Limeira, o poeta do absurdo.

“Foi em Diamantina onde nasceu JK/E a princesa Leopoldina lá resolveu se casar/Mas Chica da Silva tinha outros pretendentes/E obrigou a princesa a se casar com Tiradentes/Laiá, laiá, laiá, o bode que deu, vou te contar”. Começou com uma verdade, JK nasceu em Diamantina. Mas logo em seguida começam os disparates. A princesa Leopoldina obrigada por Chica da Silva, a se casar com Tiradentes. A intenção de Ponte Preta era também dar ênfase ao culto da personalidade do inconfidente mineiro, estimulado pela ditadura. No final da estrofe, usa o linguajar popular para imaginar a repercussão dessa barafunda, “o bode que deu, vou te contar”.

“Joaquim José, que também é da Silva Xavier/Queria ser dono do mundo/E se elegeu Pedro Segundo/Das estradas de Minas seguiu pra São Paulo/E falou com Anchieta, o vigário dos índios/Aliou-se a dom Pedro/E acabou com a falseta/Da união deles dois ficou resolvida a questão/E foi proclamada a escravidão”. Aqui o autor quis comparar à aliança da classe média conservadora dos anos sessenta com as Forças Armadas, no golpe instaurado em 1964. Tiradentes representando os militares, pois era alferes, e a elite brasileira, tendo a nobreza imperial como similar na estória, contando ainda com o circunstancial apoio da Igreja Católica, que depois procurou se redimir do equívoco praticado, aí colocada na citação do Padre Anchieta. Todos juntos “proclamaram a escravidão”, deram o golpe, fulminaram a democracia, cercearam os direitos políticos dos cidadãos, implantando um regime onde agiam com arbitrariedade, violência e edição de atos institucionais.

“Assim se conta essa história/Que é dos dois a maior glória/A Leopoldina virou trem/E dom Pedro é uma estação também/Oô oô oô, o trem tá atrasado ou já passou”. Finaliza sua narrativa associando as duas expressões da história do Brasil Império ao cotidiano do povo. Ambas deram nome a estações de trem, onde a população passa diariamente com seus sofrimentos sem o olhar preocupado das autoridades governamentais. E o cidadão triste e indignado com essa indiferença do poder público, vê que “o trem tá atrasado ou já passou”, nunca está de acordo com as suas necessidades de momento. As políticas públicas quase sempre estão atrasadas ou não são eficazes para a coletividade.

• Integra a série de crônicas “PENSANDO ATRAVÉS DA MÚSICA”.

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