“Um homem não chora (Guerreiro menino)

Vivemos numa sociedade que tem muito de uma cultura machista. Desde criança nos acostumamos a ouvir que “homem não chora”. Gonzaguinha contesta esse conceito, procurando demonstrar que o homem deve, também, extravasar suas angústias, tristezas e dores, através das lágrimas. A belíssima letra da canção “Um homem também chora” ou “Guerreiro menino”, gravada em 1983, expressa o quanto é importante, inclusive para a saúde, o homem não se envergonhar de revelar em público, através das lágrimas, sua sensibilidade diante de um acontecimento que lhe provoca sofrimento, decepção, desgosto, desilusão. Ataca, também, o sistema capitalista com a falta de oportunidade de emprego, o que afeta a auto estima das pessoas, levando-as ao desalento, um estado de espírito de desesperança.

“Um homem também chora/Menina morena/Também deseja colo/Palavras amenas”. Muita gente teima em dar ao homem a imagem de um ser bruto, frio. Gonzaguinha contraria essa concepção. Diz na primeira estrofe de sua música que, seja em qual idade ele esteja, sente em determinados momentos a necessidade de colo, carinho, apoio. Gosta de ouvir palavras que lhe deem uma sensação de suavidade, brandura, serenidade, ao invés de diálogos onde predominem a aspereza, rispidez, severidade.

“Precisa de carinho/Precisa de ternura/Precisa de um abraço/Da própria candura”. Em nada diminui a honra e a dignidade do homem, ser meigo, afetuoso, terno. Precisa abraçar seu próprio sentimento de pureza, de inocência, que existia enquanto criança, mas que nunca morre, podendo estar momentaneamente adormecido, até pela cobrança de regras sociais, muitas vezes hipócritas.

“Guerreiros são pessoas/Tão fortes, tão frágeis/Guerreiros são meninos/No fundo peito”. A figura do provedor, do responsável pela própria sobrevivência e da família que, historicamente, na sociedade patriarcal, obriga o homem a se mostrar valente, corajoso, forte. Esquecendo-se que ele é um ser humano e tem emoções, se apaixona e sente medo, se atormenta e passa por situações de desamparo, de mágoas, de derrotas. Então o forte, circunstancialmente, se torna frágil, porque no corpo de um guerreiro bate um coração de menino.

“Precisam de um descanso/Precisam de um remanso/Precisam de um sono/Que os tornem refeitos”. As conquistas, por mais difíceis que sejam, são conseguidas através de batalhas, intercaladas por momentos de descanso. Não há força que despreze a necessidade do repouso que recompõe energias; da tranquilidade que alimenta a paciência e a perseverança, do sono que recupera a vitalidade e o vigor físico e mental.
“É triste ver meu homem/Guerreiro menino/Com a barra do seu tempo/Por sobre seus ombros/Eu vejo que ele berra/Eu vejo que ele sangra/A dor que tem no peito/Pois ama e ama…”. Gonzaguinha, como se olhasse num espelho, se vê meio que abatido pelo avançar da idade, carregando sobre seus ombros tanta responsabilidade. E aquele homem, que visualiza o “guerreiro menino”, grita quando aflito, proclama alto seus sentimentos, pranteia suas amarguras. Percebe, que o espelho reflete alguém, que tem coração, que ama e por causa desse amor que traz no peito, muitas vezes chora.

“Um homem se humilha/Se castram seu sonho/Seu sonho é sua vida/A vida é trabalho”. Vivemos o tempo inteiro construindo projetos, sonhando, idealizando formas de realização pessoal. Nada é pior do que ver os desejos alimentados serem castrados, impedidos de serem executados. Leva no mínimo a um condicionamento de humilhação, pela incapacidade de reagir ou pela obrigação de se submeter a vontades que se interpõem no seu caminho. A vida é uma construção diária do trabalho.

“E sem o seu trabalho/O homem não tem honra/E sem a sua honra/Se morre, se mata”. Muito verdadeira a definição de que o trabalho dignifica o homem. Sem o trabalho ele se acha inútil, e é visto como um pária. O ócio é laboratório do mal. Sentindo-se desonrado muitos cometem suicídio, ou partem para o cometimento de delitos maiores por puro desespero. Gonzaguinha, no seu senso crítico, ataca o sistema capitalista onde a luta é desigual na ocupação de espaços, no mercado de trabalho.

“Não dá pra ser feliz/Não dá pra ser feliz”. Conclui que nessas condições, extremamente desfavoráveis, ninguém consegue ser feliz.

• Integra a série de crônicas “PENSANDO ATRAVÉS DA MÚSICA”.

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