O pernambucano Luis Bandeira é autor de grandes frevos, e entre eles destaque para “Quarta feira ingrata”, a música mais cantada no carnaval de 1950. O verdadeiro folião vê sempre a quarta feira de cinzas com tristeza, porque representa o fim de festa, quando a vida volta à realidade, depois de viver o mundo da fantasia na brincadeira dos três dias de carnaval.
“É de fazer chorar/Quando o dia amanhece/E obriga o frevo acabar”. O carnavalesco não se cansa, e no íntimo deseja que nunca amanheça a quarta feira de cinzas. A alegria e animação, em que se viu envolvido no tríduo momesco, chegar ao seu fim. Quando o frevo acaba bate um clima de melancolia que dá vontade de chorar.
“Oh! quarta feira ingrata/Chega tão depressa/Só pra contrariar”. Reclama que os três dias de carnaval tenham passado tão rápidos. No entusiasmo da festa nem parece que tudo vai acabar na quarta feira. Mas ela chega, não há como evitar, e só resta lamentar. Afinal de contas veio “só pra contrariar”, tirar o folião do prazer da brincadeira, e recolocá-lo no mundo da realidade.
“Quem é de fato/Um bom pernambucano/Espera um ano/E se mete na brincadeira”. O autor do frevo, na condição de pernambucano, ressalta a identificação do seu povo com o carnaval. Seus conterrâneos, segundo afirma, passam o ano esperando por essa festa. E quando afinal acontece, não pensa duas vezes, se integram por inteiro à alegria da festa de Momo.
“Esquece tudo/Quando cai no frevo/E no melhor da festa/Vem a quarta feira”. O período do carnaval faz com que as pessoas se desliguem de tudo o que vivem no cotidiano. Abandonam regras, ousam quebrar paradigmas e despem-se, muitas vezes, do falso moralismo. Em suma, esquecem tudo e caem no frevo. Mas, como diz o velho ditado “o que é bom dura pouco” chega a quarta feira e acaba essa liberdade que provoca sonhos e ilusões. E a vida volta à sua normalidade, com todos os seus problemas e responsabilidades.
• Integra a série de crônicas “PENSANDO ATRAVÉS DA MÚSICA”.

