“Água de beber”

Em 1960 Tom Jobim e Vinicius de Moraes empreenderam uma viagem de aventura saindo do Rio até o local onde estava sendo construída a futura capital do Brasil. Foram num fusquinha, atendendo convite do presidente Juscelino Kubitschek para compor a Sinfonia da Alvorada. Numa manhã, passeando nos arredores do “Catetinho”, residência provisória do presidente, onde ficaram hospedados, eles ouviram um barulho de queda d’água e perguntaram a um vigia de onde vinha aquele som, e obtiveram a seguinte resposta: “É água de beber, camará”. Foi a inspiração para escrever mais um clássico da bossa nova, “Água de beber”. Sua primeira audição foi no Piano Bar do Brasília Palace Hotel. Até hoje quem quiser conhecer a fonte d’água que inspirou os compositores, basta ir ao Country Club na capital brasileira.

“Eu quis amar, mas tive medo/E quis salvar meu coração/Mas o amor sabe um segredo/O medo pode matar o seu coração”. O que tem a ver a água de beber com o amor? Sem a água de beber você pode morrer de sede. Sem o amor você pode ter um coração morto, sem vida. Os autores falam do medo de amar, e esse é um sentimento normal no ser humano. O amor muitas vezes causa apreensão, receio do que possa acontecer. Afinal de contas o amor é uma entrega, é toda forma de se doar, é um risco. Não é uma decisão fácil. É preciso atenção para saber quando é preciso “salvar o coração”. No entanto, há um segredo nessa manifestação de sentimento. E, se o medo preponderar pode “matar o coração” fazendo morrer no nascedouro as emoções que trazem alegrias e prazeres inesquecíveis.

“Água de beber/Água de beber camará”. Eis aí a afirmação do morador de Brasília em resposta à indagação sobre o som da água que jorrava na fonte próxima ao Catetinho.

“Eu nunca fiz coisa tão certa/Entrei pra escola do perdão/A minha casa vive aberta/Abri todas as portas do coração”. O convencimento de que tudo merece perdão, até o medo de ser feliz. Vencer receios, superar as incertezas, mas ousar em busca do amor. Então decide ser receptivo às manifestações do coração, “abrir todas as portas” de forma a se deixar ser atingido pelo cupido. A vida não pode se fechar às oportunidades da felicidade determinadas por sensações de uma paixão.

“Eu sempre tive a certeza/que só me deu desilusão/é que o amor é uma tristeza/mágoa de mais para um coração”. Enfim quer desfazer a impressão deixada pelas experiências vividas, onde as desilusões fizeram-no ficar desacreditado no amor. Seu coração até então só colecionou ressentimentos e mágoas.

Integra a série de crônicas “PENSANDO ATRAVÉS DA MÚSICA”.

 

 

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