“Desesperar jamais”

A dupla Ivan Lins e Vitor Martins é responsável por várias lindas canções da música popular brasileira. Em 1979, quando começava a ganhar fôlego o movimento pela reabertura política no país, essa parceria compôs “Desesperar jamais”, que, como não poderia ser diferente, foi censurada pelos militares por entenderem que se tratava de um incentivo à organização do povo para a derrubada da ditadura. Tornou-se um hino da resistência.

“Desesperar jamais/Aprendemos muito nesses anos/Afinal de contas não tem cabimento/Entregar o jogo no primeiro tempo”. Na verdade a intenção era mesmo mandar uma mensagem de encorajamento e dar ânimo. Os anos sombrios em que vivíamos sob o regime de força que se instalara em 1964, nos haviam ensinado bastante. Era preciso alterar a nossa história, apagando aquela página negra. Não podíamos continuar inertes, sem reação. Não tínhamos porque baixar as armas, a hora era de irresignação e de luta. Porque “entregar o jogo no primeiro tempo”? Não se deve perder uma partida por antecipação e acovardamento. Era chegado o momento da “virada”.

“Nada de correr da raia/Nada de morrer na praia/Nada! Nada! Nada de esquecer”. O convite para o enfrentamento sem medo, com determinação e coragem. O alerta de que “não se deveria morrer na praia”, estávamos avançando em direção à reconquista da nossa liberdade democrática, e por isso nada de pensar em desistir. Tínhamos todos os motivos para não esquecer os horrores vividos sob o regime da ditadura.

“No balanço de perdas e danos/Já tivemos muitos desenganos/Já tivemos muito que chorar”. A avaliação dos acontecimentos nos oferecia um saldo negativo, onde as razões de lamentar eram muito maiores do que as de comemorar. O tempo era de “desenganos”, insatisfações, sofrimento.

“Mas agora, acho que chegou a hora/De fazer valer o dito popular/Desesperar jamais”. O grito de guerra. A compreensão de que havia chegado o instante da insurreição, de sentir que o desespero não poderia inibir as ações em favor da causa cívica de libertação do nosso povo.

“Cutucou por baixo, o de cima cai/Desesperar jamais/Cutucou com jeito, não levanta mais”. Se as bases se movimentassem, a parte de cima, o governo, não se sustentaria, cairia. A força coletiva pressionando para fragilizar o poder do comando autoritário. “Cutucando com jeito”, de forma disciplinada, organizada, os ditadores não teriam como reagir e ganharíamos a batalha, a ditadura cairia por terra e não conseguiria se reerguer. E foi o que felizmente aconteceu.

• Integra a série de crônicas “PENSANDO ATRAVÉS DA MÚSICA”.
 

 

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