Cazuza era muito apegado aos avós e entre os seus escritos Lucinha Araújo, sua mãe, encontrou, anos após sua morte, um poema dedicado à avó materna. Deu então a Ney Matogrosso que pediu a Frejat para musicá-lo. A canção hoje é bastante conhecida e foi tema da novela “Sangue Bom” da TV Globo. Fala que ao acordar de um pesadelo recordava dos tempos de infância.
“Eu hoje tive um pesadelo/E levantei atento, a tempo”. Todo mundo acorda assustado quando tem pesadelos. Eles, de certa forma, nos causam medo, sobressalto, algo que nos surpreende. Mas Cazuza diz que acordou “atento”, “a tempo”, com o pensamento inteiramente rememorando tudo o que passou enquanto dormia. Mas despertou a tempo de sair do susto para viver a emoção das recordações.
“Eu acordei com medo/E procurei no escuro/Alguém com o seu carinho/E lembrei de um tempo”. Assustado com o pesadelo, ao abrir os olhos percebeu tudo escuro. Procurou amparo, abrigo, carinho, apoio, proteção. Veio então na memória a convivência com a avó querida, um tempo que lhe trazia uma sensação de felicidade.
“Porque o passado me traz uma lembrança/Do tempo que eu era criança/E o medo era motivo de choro/Desculpa para um abraço ou um consolo”. Reviver, em pensamento, momentos vividos na infância é sempre muito bom. A criança chora com facilidade, ainda mais quando se vê com medo de alguma coisa. E para vencer o temor busca o “colo” de alguém em quem confia e ama. Normalmente uma pessoa da família, que lhe dá mimo, carinho, consolo. No caso ele se lembrou da avó.
“Hoje eu acordei com medo/Mas não chorei nem reclamei abrigo”. Entretanto mesmo não sendo mais criança, acordou com medo. Mas não tinha motivos para chorar, nem ir em busca do abraço confortador. Trazia no seu pensamento uma lembrança agradável que não representava nada que pudesse lhe aterrorizar. E sabia que, naquele instante, o abraço consolador em que pensara já não seria possível, porque sua avó não mais vivia.
“Do escuro, eu via um infinito/Sem presente, passado ou futuro”. A emoção que sentia era tão forte que “no escuro” não conseguia classificar o tempo. Misturavam-se ocorrências pretéritas, sentimentos do presente e desejos do futuro. Uma história sem fim.
“Senti um abraço forte, já não era medo/Era uma coisa sua que ficou em mim, que não tem fim”. O envolvimento espiritual como se “fosse um abraço forte”, daí a razão de ao acordar não sentir mais medo. Ficara na sua memória a presença da avó, impregnada no seu ser, solidificada na sua consciência e no seu coração.
“De repente, a gente vê que perdeu/Ou está perdendo alguma coisa/Morna e ingênua que vai ficando no caminho”. Bate uma certa nostalgia. A impressão de que a alegria momentânea se desfaz ao verificar que no “meio do caminho”, havia perdido o ente querido de quem estava se lembrando. Não existe mais a companhia física, ficava apenas a recordação forte dos seus carinhos, dos seus afagos e da sua luz protetora.
“Que é escuro e frio, mas também bonito/Porque é iluminado/Pela beleza do que aconteceu há minutos atrás”. O pesadelo era “escuro e frio”, mas lhe trouxe, ao despertar, uma lembrança linda, iluminada, cheia de energia positiva. O que acontecera “há minutos atrás”, agora sentindo uma aura gostosa, tranquilizadora, não poderia ser esquecido.
• Integra a série de crônicas “PENSANDO ATRAVÉS DA MÚSICA”.