A letra dessa música é filosofia pura. Gilberto Gil nos provoca a refletir sobre os benefícios e as implicações que os avanços tecnológicos têm oferecido à humanidade. E questiona porque continuamos presos na escuridão da ignorância. “Queremos saber” é um grito de alerta para a necessidade de buscarmos respostas para nossas aflições e ansiedades. Foi gravada em 1976.
“Queremos saber/o que vão fazer/com as novas invenções”. O conhecimento é que liberta o homem. Gil entende que precisamos nos livrar da ditadura imposta pelo poder científico. Para que servirão “as novas invenções”? Proporcionarão, de verdade, uma melhor condição de vida para o mundo?
“Queremos notícia mais séria/sobre a descoberta da antimatéria/e suas implicações/na emancipação do homem/das grandes populações/homens pobres das cidades, das estepes, dos sertões”. Os cientistas se julgam “donos da verdade”, mas desprezam o princípio elementar da qualidade de vida de forma igualitária entre todos os homens. Em que “as grandes descobertas” têm contribuído para o homem oprimido pelos poderes políticos e econômicos se “emancipe”? Nos rincões onde predominam a miséria e a segregação social, a ciência não exerceu qualquer influência para sua libertação do jugo imposto pelo sistema capitalista que prepondera na nossa sociedade.
“Queremos saber quando vamos ter/raio laser mais barato/queremos de fato um relato/retrato mais sério do mistério da luz”. Não basta criar novidades num universo científico. É preciso que sejamos informados a que se destinam essas “novidades”. A “luz” é conhecimento, saber. A ciência deverá ser usada para desvendar os mistérios da “luz”, mas que seja para livrar a humanidade das suas dores existenciais.
“Luz do disco voador/para iluminação do homem/tão carente e sofredor/tão perdido na distância da morada do Senhor”. O “disco voador” pode ser compreendido metaforicamente como o “sobrenatural”, a luz mística que vem de um ser superior. Essa sim, a luz que pode dar carta de alforria ao homem “sofrido e carente”. Porque a humanidade, de certa forma, ainda continua distante de Deus, quando, na prática, imprime uma convivência tão desigual entre as pessoas.
“Queremos saber, queremos viver/confiantes no futuro/por isso se faz necessário/prever qual o itinerário da ilusão”. A esperança de dias melhores é condição primordial para alcançar a paz de espírito. A busca desse sentimento de confiança no futuro é necessária. Temos que ter a noção firme das ilusões construídas, de forma a que não concorramos para potencializarmos frustrações, decepções e consolidação cada vez maior de comportamentos submissos consequentes do império das injustiças e das opressões.
“A ilusão do poder/pois se foi permitido ao homem/tantas coisas conhecer/é melhor que todos saibam/o que pode acontecer”. O poder embriaga e afasta a capacidade de compreender o que é ético e o que é moral. Deus deu inteligência ao homem para que ele fosse avançando no “desconhecido”, ampliando o nível de conhecimento. Na canção o que Gilberto Gil questiona é se esse dom ofertado por Deus está sendo bem aproveitado em favor da humanidade. Receia de que nós, alheios ao saber científico, estejamos sendo inocentes úteis, ignorando os resultados e as consequências dessas inovações apresentadas a cada instante.
“Queremos saber/queremos saber/todos queremos saber”. Fala quase como uma exigência, de que é indispensável que nós, simples mortais, saibamos, numa linguagem compreensiva, como e porque os cientistas estão mudando o mundo.
• Integra a série de crônicas “PENSANDO ATRAVÉS DA MÚSICA”.