“Tempo perdido”

A música “Tempo perdido” de Renato Russo, gravada em 1986 pela banda Legião Urbana, traz na sua letra uma carga de pensamentos ideológico muito forte. Não deixa de ser uma crítica à sociedade capitalista e exploradora da contemporaneidade. Nosso tempo usado a serviço dos poderosos, daqueles que abusam da nossa impotência de reagir contra a opressão e a submissão imposta pelo sistema. Um tempo que aparentemente pode ser considerado perdido.

“Todos os dias quando acordo/Não tenho mais o tempo que passou/Mas tenho muito tempo/Temos todo o tempo do mundo”. Imagino que Renato quando fala “ao acordar todos os dias”, não se refere ao acordar biológico, mas ao despertar para a consciência crítica da vida. É quando, a cada início do dia, fazemos uma avaliação das circunstâncias em que estamos envolvidos na nossa vida e percebemos que o tempo está passando, mas, ao mesmo tempo, sabemos que temos muito o que fazer, uma existência futura a ser melhor vivenciada.

“Todos os dias antes de dormir/Lembro e esqueço como foi o dia/Sempre em frente/Não temos tempo a perder”. É normal que façamos isso sempre que encerramos uma jornada. Lembrarmo-nos dos pontos positivos e negativos da trajetória finda. Uma autoanálise de comportamentos. Em sendo lembranças, são registros de acontecimentos pretéritos, portanto vão ficar na memória e com o tempo desaparecerão. O importante é que a vida continua e não podemos perder tempo.

“Nosso suor sagrado /É bem mais belo que esse sangue amargo/E tão sério/E selvagem/E selvagem/ E selvagem” Dá ênfase ao que conquistamos diuturnamente como resultado do nosso trabalho, “o suor sagrado”. A beleza do esforço para mostrar-se útil na sociedade em que vivemos. Só lamenta que a humanidade seja refém da ganância dos que dominam o mundo econômico, fazendo com que “o sangue” derramado pelos trabalhadores contribua para o enriquecimento de uma minoria. É o capitalismo selvagem.

“Veja o sol dessa manhã tão cinza/A tempestade que chega é da cor dos teus/Olhos castanhos”. Mesmo as perspectivas não sendo animadoras há de se acreditar que “na manhã tão cinza” apareça o sol, que pode fazer brilhar o novo tempo a vir. No entanto, o que se apresenta é o anúncio de uma “tempestade”, e ver a cor castanha, nos olhos da pessoa amada, nesse vendaval.

“Então me abraça forte/E diz mais uma vez/Que já estamos distantes de tudo/Temos nosso próprio tempo”. No enfrentamento das adversidades da vida é preciso que estejamos juntos, a união faz a força. O abraço forte forma corrente de encorajamento e de disposição de luta. A aliança dos desprotegidos diminui as fragilidades e dá ânimo no estabelecimento das estratégias nesse combate desigual. “Temos o nosso próprio tempo”, somos responsáveis pela condução de nosso destino, basta termos ciência disso e não permitirmos a subserviência e a submissão como postura de vida.

“Não tenho medo do escuro/Mas deixe as luzes acesas agora/O que foi escondido é o que se escondeu/E o que foi prometido, ninguém prometeu/Nem foi tempo perdido;/Somos tão jovens/Tão jovens”. O escuro é o desconhecido, não devemos ter medo de enfrentá-lo, mas é conveniente “deixar as luzes acesas”, ficarmos atentos para não nos perdermos por falta de visão, ou tropeçarmos pela ausência de luz que nos possibilite enxergar os obstáculos da vida. Não nos deixemos guiar pelas ilusões e promessas, afinal de contas não existe tempo perdido, porque há uma longa existência pela frente, “somos tão jovens”.

• Integra a série de crônicas “PENSANDO ATRAVÉS DA MÚSICA”.

 

 

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