Essa música do Serginho Meriti, gravada em 2002 pelo sambista Zeca Pagodinho, pode ser considerada o “hino da acomodação”. A sua letra fala de uma pessoa conformada com a vida, resignada com a sua situação, mesmo sendo cheia de dificuldades e de privações. Alguém que não se dispõe a reagir, reivindicar, questionar, protestar. Assume uma posição de passividade porque entende que não seja responsável para dar encaminhamento à sua vida, deixa que tudo aconteça da forma que vier, “como Deus quer”, é que se costuma dizer os acomodados.
“Eu já passei/ Por quase tudo nessa vida/Em matéria de guarida/ Espero ainda a minha vez”. A manifestação mais explícita da desistência de guiar a própria vida. A preferência por “esperar a guarida”, depender das decisões e vontade de outros os quais, julga detentores do poder de resolver seus problemas. Tranquilamente alimenta a esperança de que a sua vez chegará, não há porque precipitar acontecimentos. Nem as vicissitudes da vida motivam um esforço de reação.
“Confesso que sou/ De origem pobre/Mas meu coração é nobre/Foi assim que Deus me fez”. Então, quer dizer que quem nasce pobre tem que morrer da mesma forma, porque “foi assim que Deus fez”? Quem nos faz pobres não é Deus, mas a própria sociedade, as circunstâncias, a conjuntura, o sistema, a política desigual e injusta que impera no mundo. E aos poderosos é interessante que os pobres continuem, pensando como o personagem da música, inertes, paralisados, submissos, se contentando com a situação de inferioridade social porque esse é o destino que lhes foi traçado para viver.
“E deixa a vida me levar/Vida leva eu!”. O refrão da música estimula a indiferença com os fatos que possam direcionar sua vida. Não se coloca como guia da própria vida. Prefere que outros o façam por ele. Não define seu rumo, segue a trilha que lhes orientam a caminhar.
“Sou feliz e agradeço/Por tudo o que Deus me deu”. Agradecer a Deus tudo o que Ele nos oferece é o que devemos fazer todos os dias, mas não achar que a providência divina vai nos conduzir em tudo na vida. Ele nos dá a vara e o anzol, mas se não formos pescar morreremos de fome, sem o peixe para nos alimentar. Deus quer que tomemos iniciativa, sejamos proativos, determinados na busca daquilo que nos permita ter uma boa qualidade de vida. Ele nos dá disposição de luta, coragem, inteligência, talento, para dirigirmos nosso caminhar. Não induz ninguém à preguiça, a apatia, a indolência.
“Se a coisa não sai/ Do jeito que quero/Também não me desespero/O negócio é deixar rolar”. A ausência de interesse faz com que suporte pacificamente os desacertos, as injustiças, as adversidades. “Deixar rolar”, concordar com tudo sem reclamar, admitir tudo sem procurar alterar os fatos que lhes são prejudiciais.
“E aos trancos e barrancos/Lá vou eu!/E sou feliz e agradeço/Por tudo que Deus me deu”. Aquele que se contenta com pouco, e se acha feliz assim. Os “trancos e barrancos” são coisas que não podem ser impedidas, já estavam estabelecidos que fossem acontecer na sua vida. O que lhe resta é agradecer a Deus o fato de estar vivo.
• Integra a série de crônicas “PENSANDO ATRAVÉS DA MÚSICA”.