“O poetinha” como era conhecido o genial Vinicius de Moraes, era diplomata, jornalista, poeta e compositor. Foi um dos maiores nomes da Bossa Nova, movimento de renovação na música nacional nos anos sessenta. Em 1962, em parceria com Tom Jobim, compôs aquela que seria uma das músicas mais tocadas no mundo “Garota de Ipanema”.
Poderia ser “Garota de Tambaú”, “Garota de Iracema”, “Garota da Pajuçara”, não importa a praia , porque, na verdade, o objetivo de Vinicius era exaltar a beleza da mulher brasileira. Ipanema foi apenas o cenário que inspirou os autores da célebre música. Na sua letra está realçado todo o encanto da mulher que freqüenta o nosso vasto litoral, cantado em verso e prosa no mundo inteiro.
“Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça/é ela menina, que vem e que passa/num doce balanço a caminho do mar”. Ninguém pode negar a sensação de deslumbramento que provoca a visão de uma mulher linda no seu passeio à beira mar. Colírio para os olhos do mais exigente apreciador da beleza feminina. Faceira ela desfila toda a sua formosura, ciente de que desperta atenções, chama para si olhares de admiração e desejos. “A caminho do mar” ela se revela uma sereia tropical, confunde-se com a beleza do oceano. Difícil decidir para qual maravilha da natureza deve-se atentar no “ver”: o mar ou a beldade que causa êxtase no seu “passar”.
“Moça do corpo dourado do sol de Ipanema/o seu balançado é mais que um poema/é a coisa mais linda que já vi passar”. O sol que banha nosso litoral dar à mulher brasileira uma cor bronzeada que a diferencia das suas semelhantes no resto do mundo. Torna-se singular, ímpar, única. Não há igual em lugar nenhum. Mas não é só a cor que fascina, mas o seu andar, o seu gingado com o corpo ao caminhar, a autoconsciência de que “arrasa”. E como os compositores afirmaram, ninguém pode deixar de exclamar “a coisa mais linda que já vi passar”.
“Ah porque estou tão sozinho?/Ah porque tudo é tão triste?/Ah, a beleza que existe/a beleza que não é só minha/que também passa sozinha”. Acorda para a realidade e lamenta estar tão sozinho, e se sente triste. O sonho do momento, a fantasia causada pela perfeição do que vê, ficam distantes de serem realizados. Afinal de contas essa beleza é patrimônio nacional, não pertence a uma só pessoa. Ao exibir-se na sua marcha cheia de charme e delicadeza ela também está sozinha, indiferente aos olhares e desejos que estimula.
“Ah se ela soubesse que quando ela passa/o mundo inteirinho se enche de graça/ e fica mais lindo por causa do amor”. Claro que ela sabe. O amor nasce da beleza estética observada no primeiro momento. Paixão a primeira vista, nem que seja um amor platônico, inalcançável, inatingível, impossível de ser realizado. Mas faz pulsar mais forte os corações. E o mundo, entendido como a vida, fica mais lindo por causa desse amor repentino resultante da imagem fantástica e deslumbrante do passeio da mulher brasileira por nossas praias.
Permitam-me Vinicius e Tom Jobim, onde estiverem, mas por bairrismo, vou substituir Ipanema por Tambaú, e substituir o título da canção para “Garota de Tambaú”. A mulher paraibana não fica nada a dever à mulher carioca.
• Integra a série de crônicas “PENSANDO ATRAVÉS DA MÚSICA”.
• Por esse texto presto minha homenagem ao imortal Vinicius de Moraes que ontem completaria cem anos de idade se estivesse vivo.