Em janeiro de 1956 os pernambucanos Corumbá, José Guimarães e Venâncio compuseram a música que viria a ser considerada um dos clássicos da MPB: “O último pau de arara”. Desde então foram vários os cantores que gravaram esse canto nordestino, entre os quais Luis Gonzaga, Clara Nunes, Fagner, Maria Bethania, Zé Ramalho, entre outros.
“O último pau de arara” coloca de forma magistral o amor do nordestino ao seu torrão natal, em que pesem todas as agruras e sofrimentos que lhes impõe o período de seca que avassala a região quase que anualmente, ele teima em não abandonar o seu lugar de origem.
“A vida aqui só é ruim/quando não chove no chão/mas se chove dá de tudo/fartura tem de porção”. A convicção de que a terra é boa, o que falta é chuva. Se ela é molhada tem produção, há colheita, existe fartura.
“Tomara que chova logo/tomara, meu Deus, tomara”. A esperança sempre de que a chuva virá. E o apelo a Deus para que isso aconteça logo, pois só assim a vida sofrida do nordestino pode mudar.
“Só deixo o meu cariri/no último pau de arara”. Ele decide resistir até o derradeiro momento, sempre na expectativa da chuva. Consegue na fé a força para enfrentar as adversidades causadas pela estiagem. Não tem coragem para abandonar seu “cantinho” de nascimento.
“Enquanto a minha vaquinha tiver o couro e o osso/e puder com o chocalho pendurado no pescoço/eu vou ficando por aqui”. Mesmo vendo o gado morrendo de fome e sede, ele não perde a esperança. Tenazmente se determina a ficar, padecendo junto com a sua criação animal.
“Que Deus do céu me ajude/quem sai da terra natal/em outro canto não para”. Levanta as mãos aos céus em oração, implorando auxílio, para que não se veja obrigado a sair do seu lugar. Sabe que como forasteiro não se sentirá bem em canto nenhum. Por isso mesmo o convencimento de que não se firmará em outras regiões, fora do seu “habitat” natural. Seu chão é o nordeste, “o cariri” como regionaliza a música, e dele só sairá se não tiver forma alguma de sobrevivência.
• Integra a série de crônicas “PENSANDO ATRAVÉS DAS MÚSICAS”
