Em Junho de 2013 houve um belo exercício, no sentido da evolução política do Brasil. A democracia do país poderá sair fortalecida, com os rumos inovadores propostos pelo povo nas ruas. Mas é prudente ressaltar que o êxito dos protestos será medido pelo que vier a ser efetivamente atendido, com resultados objetivos.
Em 1992, o povo brasileiro foi às ruas contra a corrupção instalada na Presidência da República. Houve um gigantesco movimento pela saída do presidente Fernando Collor. O pedido do seu impeachment foi assinado pelos presidentes das ABI, OAB, CUT e UNE e aprovado pelo Congresso Nacional, em 29.09.1992.
No governo Collor, a vida socioeconômica do Brasil era um caos. A inflação de mais de 1.000% ao ano resistia aos sucessivos planos de estabilização. A economia mantinha-se de recessiva a estagnada, sem credibilidade externa, e com as finanças públicas muito endividadas e deficitárias. Havia fortes motivos para uma convulsão social. A superinflação erodia e confiscava as rendas das pessoas mais pobres.
Mas, covenhamos, o Brasil pós-Collor de Melo mudou pouco, quanto à corrupção em geral e ao anacronismo político, moral e ético. Os avanços econômicos se basearam mais em soluções técnicas. Destacam-se a abertura externa da economia nacional, o controle da inflação, a responsabilidade fiscal, o crescimento econômico, a rede de proteção social e a expansão do mercado interno.
Esses avanços ainda estão acomodando os seus efeitos políticos e sociais na estrutura das classes socioeconômicas A, B, C, D e E. Na classe E foram incluídas mais de 50 milhões pessoas que viviam em pobreza absoluta. As classes D e C passaram a ter mais de 100 milhões de pessoas. As classes A e B (de altas rendas e rendas médias altas) diminuíram a dimensão relativa. O acesso ao crédito fácil, farto e barato ajudou na melhoria do padrão de vida das classes médias e pobres.
A atual pauta de reivindicações das ruas é complexa, virtuosa e rica de conteúdo. Em 1992, as insatisfações populares se sintetizam no “Fora Collor”, mas, no fundo, o que se queria era sair de uma longa fase de regressão socioeconômica com superinflação. Agora, em 2013, a sociedade brasileira manifesta a convicção de que o país pode ser mais desenvolvido com mais bem-estar para todos. O povo quer melhorias no presente e um futuro mais promissor.
Não basta ter escolas, se a educação não é pública e de qualidade em todos os níveis. Não basta ter o sistema nacional de saúde, se o atendimento médico-hospitalar e dos serviços de saúde é de baixa eficiência e qualidade. Não basta ter emprego, se as ocupações não forem bem remuneradas. Não basta ter acesso aos transportes coletivos e à compra de automóvel, se a mobilidade urbana é precária. Não basta a liberdade de ir e vir e do exercício da cidadania, se insegurança pública amedronta a todos.
Há, porém, um problema maior a resolver. É essencial elevar os padrões de eficiência, eficácia, morais e éticos do sistema político-eleitoral e dos poderes públicos do país. Sem isto tudo tende a continuar como antes.