{arquivo}Se reparar direito, a memória me faz ver Elba Ramalho já no bar Boiadeiro, na rua Coração de Jesus,em pleno agito do Baixo Tambaú, de propriedade de Bento da Gama. Era neste ambiente, hoje onde se situa uma pousada, que atraia todas as inquietações e pessoas – algumas delas, como a própria Elba, Zé Ramalho, Jarbas Mariz, etc, antes da viagem definitiva ao Rio de Janeiro para pontificar como estrela da Música Popular Brasileira.
Desde esse tempo, Elba sempre cultuou a dedicação e qualificação ao trabalho intenso, as boas relações e nunca deixou de opinar sobre o que sua consciência dita acerca do mundo. Mais do que isso,durante o tempo possível experimentou todas as possibilidades e formas de convivência comum no mundo artístico onde, tomando por base a frase famosa do ex-vice-presidente americano, diante do “sexo, drogas e rock’n’roll ” – muitos se perdem no caminho, entretanto, ela nunca se perdeu.
Já ali, em pleno Rio de maravilhas e ciladas, Elba se estabeleceu ralando pra danar enfrentando todo tido de frio, humano e temporal, apostando tudo, ora o teatro abrindo-lhe portas para a ampliação do network (rede de relacionamento – alô alô Chico Buarque ! ), ora em shows versáteis de uma safra de valor imenso recém aportada na cidade maravilhosa ( vide Zé Ramalho, Fagner, Belchior, Alceu Valença, Cátia de França, os baianos, etc) no final dos anos 70.
De lá em diante, ao investir forte no aprimoramento do canto e exposição corporal juntou-se à quem lhe foi útil e parceiro a partir de “Asa de Prata” sempre se dando ao direito de ser livre e atenta para cuidar bem da carreira e, sobretudo, da vida em si diante da construção da família – seu patrimônio mais diferenciado de tudo.
O mais, todos sabem de cor e salteado ao termos que admitir e cultuar a importância da carreira de Elba enquanto representante de gerações de lutas em favor da redemocratização, ética na política, avanços sociais e conceitos acerca do que lhe é importante opinar. Outro dia, por exemplo, reagiu expondo sua condição contrária à obra da Transposição do Rio São Francisco movida pelo entendimento radical em favor da ecologia, sobretudo.
Aliás, recentemente, ela vive um relacionamento complicado com setores organizados da sociedade, ou seja, movimentos das Lutas Feministas querendo impingi-la de conceitos baixos, atrasados, em face dela ter aderido nos últimos tempos à interpretação e defesa do direito à vida, condição essa que lhe faz na prática ser contra o Aborto – realidade que até no passado maluco dos bastidores da vida artística ela possa ter sido complacente, mas não agora depois de decidir se aprofundar mais na religiosidade.
Soube até que grupos de Recife andaram se mobilizando para criar constrangimentos a ela no show do Muriçocas do Miramar com faixas e agressões verbais diante deste novo estágio de vida.
Num tempo de liberdades e conquistas sociais, certamente que o Movimento Feminista tem o direito de conceituar o que quiser sobre o tempo e as pessoas mas, ao radicalizar não respeitando o direito à consciência e expressão de Elba, incide numa condição absurda e agressiva na direção inversa do que esse importante segmento tanto lutou e luta, que respeito ao pensamento e lutas alheias.
A repaginação de Elba, sua nova forma de conviver com a vida, lhe dá amplo direito de fazer o que quer, sobretudo, quando se deixa tomar por valores divinos, de Deus e da Igreja, que defende a vida.
Seja o quer for, está na hora de tratarmos melhor a história de nossas grandes personagens de todo tempo – e uma dessas indiscutivelmente chama – se Elba Ramalho.
Para encerrar, lembro a frase famosa: “Só os doidos têm idéia fixa”.
ÚLTIMA
“E nesse momento, tudo deve calar/
numa história que venha do povo/
O juízo final…”

