{arquivo}Desde quando de sua elevação para o Plano Superior que não me sai a agonia pela ausência de minha mais consistente luz humana. Maria Júlia (mãe in memorian) aprendeu a filosofar na escola do sofrimento. Até conversava com letrados do bairro da Torre sobre os aperreios e novidades da vida, mas em matéria de humanismo nunca vi personagem melhor para interpretar meus desejos, erros e virtudes.
Outro dia me flagrei enviando uma carta de muita saudade e pedido de proteção porque a barra na Terra não está fácil, não, mesmo com a melhora para muitos dos irmãos mais pobres dos rincões.
Eu, de minha parte, confesso-me volta e meia afetado, como Tereza Batista, pelo cansaço da guerra. Não nasci para bater pino, tergiversar na busca de sobrevivência, mas não é fácil cumprir missões na sociedade em meio à concorrência – em muitas vezes desleal -, diante de olhares que não permitem ver o próximo gerar prosperidade.
Como ando saudoso às vésperas do Dia de Finados, eis que reproduzo a carta enviada e recebida nos céus dos que crêem:
Uma luz de extensão pós terra
Minha mãe, não tem sido fácil. Como a senhora nos ensinou a sobreviver com dignidade aí dá muito trabalho. Sei que já dizias que não somos como os Hindus, que pouco se importam com o que os outros acham de cada um de si, por isso os valores da vida me fazem ver que a humildade é a maior das mais difíceis virtudes humanas.
Esforço-me, Mãe, como nunca mas a inveja me atordoa, mas esta temos superado com galhardia.
Minha dor maior, Mãe, está nos meus erros de gente humana que, ao se dedicar demais ao trabalho, permite a instalação dos reclamos a partir da família porque ninguém consegue abdicar de outros valores, que não só o trabalho.
Em face desse estágio inadmissível, vejo agora, tenho ameaçado perder um dos maiores pilares de minha vida. Só eu e Djavan sabemos o quanto é difícil conviver com o sentimento de morrer de sede defronte ao mar. Um mundo inteiro de água e minha miopia fazendo-me carente de água e amor.
Mas vou superar, podes crer, porque me dedico ao dom bom de amar, de ser solidário, muito solidário, e destemido na busca de meios para fazer a flor novamente desabrochar, agora regando a cada dia diante da importância do florescer.
Já deu para perceber que ando triste, com desgostos, da mesma forma que tenho guardado para lhe mostrar uma quantidade enorme de conquistas produzidas sob sua recomendação primeira de não querer para si o que não for seu, de sua conquista.
Neste particular, tem muita coisa em curso, Mãe, e Deus tem provido nossas vidas com respostas fantásticas a partir de nossos trabalhos.
Depois que Alaide voltou a estar próxima de sua moradia aí no Céu, na Terra a sua Turma anda numa boa. Cá pra nós, até Duda agora entrou na rotina pós-moderna de caminhadas, corrida leve e melhor se cuidando da vida.
Não espalhe por aí, mas eu é que, com tantas coisas para cuidar, acabei relaxando na atividade física. Me descudei da Diabetes – descuidaram de mim também.Só que resolvi corrigir as coisas. Voltei à análise, marquei todos os exames, vou retomar o Inglês, as composições poéticas, as conversas pessoais com os amigos e familiares e, quem sabe, possa desfrutar ainda mais do amor que descuidei.
Quero reinventar a alegria, fazer como a Senhora, que não se abatia com os problemões à frente. Ah! decididamente já opero a dedicação imensa e maior à família para não conviver com as solidões das viagens e das noites indormidas. Tem muitas outras coisas para fazer – e conquistar, muitas – nem posso contar agora, pois a Senhora sabe tão bem, mas neste dia (Sexta-feira) quero lhe dizer que Você me faz muita falta, enorme, sobretudo quando meu pranto não encharca mais suas saias nem a Senhora me diz: “ Calma, meu filho, tudo vai dar pé”, como se fosse a letrista da música de Gilberto Gil.
Fique em paz, Minha mãe, dê lembranças também de saudades a Antonio – pai e companheiro – e transmita minha decisão de lutar maximamente para ver nossa gente feliz na família e no amor.
Cá pra nós, vou mais longe – nas ousadias, mas nunca sem deixar de amar quem a gente precisa. Nunca mais me descuidarei do zelo do amor.
Um beijo enorme, Minha Mãe!