Outubro/1968: Registros dos jornais sobre a dissolução da passeata

 

No dia seguinte ao da dissolução da passeata pela polícia foram várias os depoimentos na imprensa narrando detalhes dos acontecimentos, particularmente a postura do governo do Estado, publicados em órgãos da imprensa local.

O jornal O Norte, em seu editorial, cujos trechos transcrevemos a seguir, assim se posicionou em relação ao episódio:
“A polícia arrebatou as máquinas de dois fotógrafos deste jornal e espancou um deles.
Um casal de namorados foi espancado por cerca de dez soldados durante o percurso de mais de trinta metros. Os dois caiam e se erguiam sem se soltar, caiam e se levantavam de mãos dadas, porque a única arma de que dispunham era a mão um do outro. Esta cena não deixaram que fosse  fotografada.
João Pessoa nunca imaginou que os espetáculos de ódio que só conhecia através de notícias, também fossem exibidos, em suas ruas, tão pacatas, tão acolhedoras e de um instante para outro, paradoxalmente, tão sufocantes e temerárias.
O espetáculo de ontem foi estúpido, selvagem, para uma cidade acostumada a torcer pelo Botafogo e tomar banho de mar em Tambaú sem nenhuma anormalidade. Foi anormal para uma cidade branca, cheia de sol, uma cidade perfumada e limpa como João Pessoa.
Haverá um mundo de paz, por certo haverá. Mas não um mundo para já, nem mesmo aquele do futuro anunciado pelas mães para seus filhos em pânico. Eles continuarão a correr em pânico pelas ruas, e se tornarão adultos, assim, nessa correria, numa loucura desembestada, e é assim, com esse medo nos olhos e com o ódio daí nascido,  que governarão amanhã.
Nós somos os pais desses homens, hoje crianças e jovens, escoiçados, feridos, esparadrapados, nas fichas do DOPS, no livro dos pronto socorros, na marca das coronhas; os pais severos desses governantes do amanhã”.

O jornalista Gonzaga Rodrigues, em sua coluna publicada nesse mesmo dia, narrava o comportamento do governo no momento da decisão em proibir a realização da passeata:
“Foi um dia de tensão. A pergunta geral, até as quatorze horas, era se a Polícia ou o Exército iam intervir na passeata programada. A partir das primeiras horas da tarde, com o deslocamento de tropas federais e do exército para os pontos centrais da cidade, a população começou a entender que a passeata seria reprimida. Mas esperava-se que a repressão se limitasse à presença ostensiva de soldados, uma vez que já se divulgava a permissão dada pelo Governo do Estado para que os estudantes saissem.
Efetivamente o Governo do Estado permitiu a concentração estudantil, prova disso é o depoimento do padre Fernando Abath, que respondia pelo Palácio do Carmo, ontem.
As onze horas o padre Abath foi procurado pelo brigadeiro Firmino Ayres, acompanhado de um dos delegados da capital, que lhe fizeram a seguinte comunicação: o governador permitiria a realização da passeata, levando em conta o papel da Igreja no movimento. A permissão seria dada, desde que a concentração não se transformasse em baderna. Só nesse caso é que a polícia interviria.
Horas depois, precisamente as quinze horas, Padre Abath é novamente procurado, dessa vez por dois oficiais do exército. Os oficiais comunicavam ao representante da Igreja, que a passeata não seria permitida de nenhuma forma, conforme determinação do IV Exército. Os oficiais tentaram convencer o Padre Abath para que entrasse em entendimentos com alguns padres e as lideranças estudantis visando evitar a concentração. Padre Abath deu a entender que não teria forças para tanto”.

Outro jornalista também comentou sobre o assunto, Soares Madruga, no Correio da Paraiba:
“Por telefone fomos informados de que o governador João Agripino, até as quatorze horas, concordara com a passeata. As quinze horas, para surpresa de seus auxiliares que se encontravam no Palácio da Redenção, mandou proibir a manifestação. Nessa meia hora de reformulação  da idéia, o chefe do executivo estadual recebeu a visita de um representante das Forças Armadas, o que não é dito com uma insinuação, porém como indagação se o militar deu informes ao governador que motivaram mudar de atitude ou se essa mudança resultou de ponderações das autoridades estaduais responsáveis pela ordem pública”.

O dia seguinte, além dessas maniestações públicas de reprovação, foi marcado por novos confrontos entre estudantes e policiais, agravando o quadro de tensão que a cidade vivia. No próximo texto trarei as informações que os jornais da época registraram desses acontecimentos.

* esse texto faz parte da série COMO A PARAIBA VIVEU O ANO DE 1968
* comentários e informações adicionais devem ser enviados para o email: iurleitao@hotmail.com

 

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