Setembro/1968 : O insucesso da campanha da TFP

 

Apesar da rejeição a que foram submetidos em João Pessoa, integrantes da Sociedade em defesa da Tradição, da Família e da Propriedade (TFP), vinculados ao núcleo de Pernambuco, decidiram voltar à Paraíba, dessa vez pretendendo coletar assinaturas para o documento que pedia a expulsão dos arcebispos Dom Helder Câmara e Dom José Maria Pires da Igreja Católica na cidade de Campina Grande.

Por precaução, temendo serem vítimas da mesma reação dos estudantes e populares de João Pessoa, os senhores Gregório Lopes e Dante Bitron Parreli, líderes do movimento, solicitaram ao delegado da cidade, major Marcílio Chaves, “garantias para que pudessem realizar livremente os seus trabalhos, sem serem molestados pelos comunistas”. Com a proteção policial prometida reuniram-se na rua Maciel Pinheiro, portando o livro de assinaturas para o documento que pretendiam entregar ao Papa Paulo VI.

Nem bem começou suas atividades, o grupo foi cercado por estudantes que rasgaram os estandartes, danificaram o material de propaganda e se apoderaram do livro de assinaturas. Os dirigentes da TFP, então, entraram em contato com o delegado de polícia informando os acontecimentos, o qual providenciou o envio de uma viatura para recolher os promotores do movimento levando-os em segurança para a sede da delegacia, não retornando às ruas para darem continuidade à coleta das assinaturas, conforme haviam programado. Mais uma vez a TFP não conseguiu a adesão dos paraibanos na sua pregação de combate aos. que chamavam de comunistas.

Parlamentares da Câmara Federal solicitaram ao Ministro da Justiça, Gama e Silva, providências para responsabilizar pessoalmente os dirigentes e membros atuantes da entidade, por causarem incidentes em vias públicas, pregando o embate ideológico entre os brasileiros. Em resposta o Ministro negou qualquer atitude nesse sentido por entender que “a TFP tinha por objetivo esclarecer a opinião pública, os partidos políticos e os poderes constituídos sobre a influência deletéria exercida na legislação e na economia do país, pelos princípios socialistas e comunistas, em detrimento da tradição brasileira e os institutos da família de da propriedade privada”. Estava provada a ligação do governo com aquela organização.

Em São Paulo, o bispo de Diamantina, Dom Geraldo Sigaud, principal apoiador da entidade, participou da solenidade que dava como encerrada a campanha desenvolvida em cento e cinqüenta e oito cidades brasileiras, quando, segundo ele, foram angariadas cerca de um milhão e meio de assinaturas ao documento que pedia providências para o que qualificava como “infiltração comunista no clero brasileiro”. A intenção do religioso era entregar o documento ao Papa Paulo VI, por ocasião da reunião dos bispos em Medellin, na Colômbia.

O Sumo Pontífice, no entanto, se recusou a recebe-lo pelas seguintes razões:
I. Conhecer a forma pela qual foram obtidas as assinaturas;
II. Ter conhecimento de que Dom Sigaud havia sugerido a círculos militares a intervenção em algumas dioceses; e
III. Saber que a TFP lançara há anos o livro “Reforma Agrária, questão de consciência”, condenando as reformas de estrutura dos quais o Papa era adepto.

Em declarações à imprensa nacional, Dom José Maria Pires, arcebispo da Paraíba, afirmou que “os princípios que orientam a TFP não representam a linha da Igreja de nossos tempos”.

• Esse texto faz parte da série COMO A PARAIBA VIVEU O ANO DE 1968
• Comentários e informações adicionais devem ser encaminhados para o email: iurleitao@hotmail.com

 

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