Setembro/1968: Membros da TFP expulsos da Paraiba

 

 A ala mais conservadora da Igreja Católica brasileira fundou em 1960 a Sociedade em Defesa da Tradição, da Família e da Propriedade – TFP, que tomou para si a responsabilidade de agir contra o comunismo e contra a luta de classes que, segundo ela, era insuflada por clérigos e leigos esquerdistas. Seu fundador, o jornalista católico Plínio Correa de Oliveira, assumia um discurso de direita e já nas primeiras ações da organização se posicionava contra o presidente João Goulart, em quem identificava como ideologicamente comprometido com a doutrina comunista.

Quando do golpe militar a partir de 1964, a entidade se aliou ao governo na caça aos comunistas, colaborando com a ditadura na sua postura autoritária e de repressão aos movimentos sociais que protestavam ante o desrespeito aos princípios democráticos e as garantias individuais dos cidadãos brasileiros que o regime estava impondo ao povo.

No clero, seu principal apoiador era o arcebispo de Diamantina, Dom Geraldo Sigaud, que defendia a adoção de providências por parte do Vaticano para impedir a infiltração comunista na Igreja brasileira. Partiu dele a idéia e o estímulo para que a TFP organizasse um movimento nacional, em que fosse redigido um documento a ser entregue ao Papa Paulo VI solicitando as expulsões de Dom Hélder Câmara, Dom José Maria Pires e do Padre Joseph Comblin.

Sairam às ruas com seus estandartes vermelhos, marcados com um leão dourado, procurando convencer a população a assinar o documento contra os religiosos nordestinos.

Na Paraiba a TFP não estava ainda organizada, por isso o trabalho de coleta de assinaturas em João Pessoa e Campina Grande, ficou a cargo de membros filiados ao núcleo de Pernambuco.

No dia seis de setembro, por volta de nove e meia da manhã, diversos integrantes da TFP pernambucana chegaram à nossa capital, e se instalaram na Praça Pedro Américo, vestidos a caráter e portando seus estandartes, distribuindo panfletos pregando o expurgo dos comunistas infiltrados na Igreja. Os discursos proferidos não estavam conquistando a adesão dos paraibanos, poucos eram os que se dispunham a assinar o documento.

Avisados da presença dos membros da TFP, estudantes se encaminharam para o local e ao perceberem entre os manifestantes alguns americanos, se irritaram e passaram a gritar palavras de ordem, buscando expulsa-los da nossa cidade, chamando-os de “traidores da pátria”, “reacionários”, “vassalos da ditadura”.

Assustados os promotores da manifestação contra os bispos nordestinos retiraram-se da Praça e abandonaram o objetivo a que tinham planejado cumprir. As listas com as poucas assinaturas obtidas foram rasgadas pelos estudantes.

Foi a primeira reação do povo em território paraibano a esse movimento da direita católica. Dias depois novo incidente aconteceria em Campina Grande, mas é assunto para o próximo texto.

• Esse texto faz parte da série COMO A PARAIBA VIVEU O ANO DE 1968
• Comentários e informações adicionais devem ser encaminhados para o email: iurleitao@hotmail.com
 

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