Agosto/1968: A eleição do Sindicato Rural de Catolé do Rocha

 

Os jornais da capital, edição de trinta de agosto, publicavam nota assinada por agricultores de Catolé do Rocha denunciando irregularidades na eleição do Sindicato dos Trabalhadores Rurais daquele município, ocorrida no dia vinte e quatro. Dirigindo-se ao povo da Paraíba e do Brasil eles denunciavam “as tramas movidas contra a classe”.

“No dia dezoito, o vice-presidente Victor Ferreira foi fazer campanha com a Junta Governativa na fazenda Olho Dágua, oportunidade em que trataram de legalizar as cadernetas que estavam atrasadas, inclusive admitindo novos sócios tendo em vista as eleições, quando se sabe que apenas podem votar os que já têm seis meses de sindicalizados.

A ausência de edital possibilitou o comparecimento em massa dos que estavam interessados em promover politicagem. Tal fato contribuiu para que se registrasse considerável ausência dos que estavam com a diretoria afastada.

Diante dos acontecimentos e da gravidade da situação, os trabalhadores procuraram a Comissão da Delegacia do Trabalho, recebendo resposta lacônica que dizia: a Junta é autônoma, ficando a seu critério tomar qualquer decisão.

Os dirigentes brasileiros estão dormindo e surdos ante as injustiças cometidas”.

A eleição alvo do protesto dos trabalhadores contou com a participação de 383 votantes, dos quais o presidente vencedor do pleito, José Fernandes Pimenta, obteve 272 sufrágios.

Os vitoriosos comemoraram afirmando que o principal derrotado era o Frei Marcelino de Santana, líder do movimento de insatisfação com a intervenção decretada pelo governo federal naquela entidade sindical.

O religioso procurou a imprensa para rebater essas insinuações políticas, afirmando que “nunca teve a pretensão de indicar nomes para concorrer às eleições sindicais que se realizaram no dia vinte e quatro de agosto”.

“Ademais, entendo que o Sindicato deve continuar livre, sem interferências de minha parte, de vez que sou apenas procurador dos trabalhadores daquela entidade, e participo da tese de que só os trabalhadores devem escolher seus representantes, sem coação interna ou externa.

Não tive candidato e nem tal fato passou pela idéia, tanto assim que estava em Caruaru prestando exames do curso de Direito que freqüento naquela escola.

Se insistirem em falar no processo eleitoral de vinte e quatro de agosto, respondo simplesmente que não houve eleição, e sim um verdadeiro simulacro. Tanto isso é verdade que tudo foi feito às escondidas com conhecimento prévio dos que insistem em fazer sindicalismo em benefício próprio.
Para que as autoridades do Governo Federal tomem conhecimento da verdade, irei ao Rio e Brasília onde deverei historiar os fatos ao Presidente da República e ao Ministro do Trabalho”.

Apesar da reação dos que não admitiam o resultado, a Diretoria eleita foi empossada, ganhando mais uma batalha contra o movimento político liderado por Frei Marcelino entre os trabalhadores rurais daquele município. A conjuntura política não permitia possibilidades de reversão do quadro, porque estava de acordo com a orientação do regime. Frei Marcelino era considerado um subversivo pelos militares e a sua liderança agitava a categoria rural, contrariando interesses dos políticos locais.

• esse texto faz parte da série COMO A PARAIBA VIVEU O ANO DE 1968
• comentários e informações adicionais devem ser encaminhados para o email: iurleitao@hotmail.com
 

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