Agosto/1968: O Instituto de Formação para o Desenvolvimento

 

Dom José Maria Pires anunciou a vinda de Dom Hélder Câmara, arcebispo metropolitano de Olinda e Recife, para o evento de instalação do Instituto de Formação para o Desenvolvimento, programado para a noite do dia quinze de agosto no Teatro Santa Roza.

Segundo Dom José, a criação do Instituto refletia o pensamento da Igreja Moderna, que “não podendo esquecer o problema do homem do século, sente-se no dever de colaborar com todas as forças ativas da comunidade na promoção do desenvolvimento integral da sociedade”.

O Instituto de Desenvolvimento, idealizado pelo arcebispo paraibano, se propunha a atuar por cinco departamentos: Ciências Religiosas, Liderança Popular, Diaconato Permanente, Centro de Debates e Cursos Especiais.

O curso de Ciências Religiosas destinava-se à formação teológica para a ação pastoral, enquanto que o de Liderança Popular dedicar-se-ia a treinar lideranças aplicáveis às classes e grupos prioritários de ação pastoral. No Diaconato Permanente o Instituto trataria de ordenar cristãos para dirigirem comunidades eclesiais de base. Já no Centro de Debates a proposta era promover discussão e análise de temas considerados de interesse relevante para as comunidades. Por fim os Cursos Especiais desenvolveriam estudos intensivos de aspectos prioritários com influência no desenvolvimento.

O professor Ronald Queiroz, um dos inspiradores da instituição a ser implantada na Paraíba, justificava sua criação afirmando que “a maior intenção é identificar a formação para o desenvolvimento com a integração na vivência do humanismo inspirada do próprio desenvolvimento. É preciso adequar as estruturas sociais aos amplos horizontes das aspirações humanas e toda a dimensão cultural do desenvolvimento, que perde sua característica apenas econômica, para assumir uma compreensão integral, abrangente e universal. Tornar dominante a preocupação social e, no contexto dos paises latino-americanos, e sobretudo o Brasil, a preocupação política”.

Como não poderia deixar de ser, a notícia da vinda de Dom Hélder a João Pessoa gerou uma expectativa muito grande, mas também uma certa apreensão, considerando que naquela época o líder religioso já era uma personalidade que preocupava os militares no poder, por sua postura corajosa na luta pelos direitos humanos, justiça social e contra o autoritarismo. Grande orador, possuidor de um carisma que impressionava, Dom Hélder conquistava multidões com seus pronunciamentos voltados para os problemas da humanidade, tornando-se uma figura conhecida no mundo inteiro. Isso apavorava os ditadores de plantão. Chegou a construir uma frase que se tornou célebre: “Se der pão aos pobres, todos me chamam de santo. Se mostrar por que os pobres não têm pão, me chamam de comunista e subversivo”.

Chegando a Paraíba na tarde da conferência no Teatro Santa Roza, dom Hélder hospedou-se no Palácio do Bispo, na praça Dom Adauto, onde, no início da noite, recebeu o governador João Agripino, com quem jantou, acompanhado exclusivamente de Dom José Maria Pires. Ao se despedir o governador desculpou-se por não comparecer ao evento programado, temendo que sua presença pudesse causar constrangimentos, em razão do clima de agitação que reinava, principalmente entre os estudantes impactados pela notícia da prisão preventiva decretada contra sete colegas universitários paraibanos.

• esse texto faz parte da série COMO A PARAIBA VIVEU OANO DE 1968
• comentários e informações adicionais devem ser encaminhados para o email: iurleitao@hotmail.com
 

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