Após os incidentes verificados na eleição do Diretório da Faculdade de Medicina, oficialmente Centro Acadêmico Napoleão Laureano, percebia-se um interesse grande da direção da escola em decretar intervenção na entidade. O diretor, Dr. Atílio Rota, teria manifestado a sua intenção em reuniões realizadas com professores da faculdade e em entendimentos com a reitoria.
Todavia, entre os estudantes o clima era de objeção à intervenção, o que ensejou diversos encontros de debates entre eles, reivindicando, se mantida a anulação do pleito do dia dezesseis, pelo menos a realização de uma nova eleição.O universitário João Roberto, um dos candidatos, se dizia prejudicado pela armação montada pelos adversários com o intuito de evitar sua eleição, considerada favorita por todos.
A Congregação da Faculdade de Medicina, porém, mesmo em divergência com a orientação da direção da escola, decidiu autorizar a realização de nova eleição no dia vinte e cinco de agosto, afastando a possibilidade de intervenção. Deliberou ainda no sentido de que fosse dada continuidade aos trabalhos da Comissão de Inquérito para apurar os incidentes do dia dezesseis. O universitário Ricardo Maia foi designado para responder pela presidência do diretório até que fosse conhecido o eleito.
O processo eleitoral foi novamente dirigido pelo Dr. Reinaldo Rangel, mantidas as chapas anteriormente inscritas, lideradas pelos estudantes João Roberto Borges da Souza, terceiranista do curso de medicina, e Carlos Augusto Steimbach Silva, que freqüentava o quinto ano daquela faculdade.
Dessa vez o pleito transcorreu na mais absoluta normalidade, registrando-se o seguinte resultado após apuração dos sufrágios: João Roberto – 90 votos; Carlos Silva -34; nulos – 42 e brancos – 14.
Ato contínuo foi empossado o vencedor, concluindo assim as eleições universitárias da Universidade Federal da Paraíba, em 1968, destacadas em nível nacional pela ousadia da escolha da direção do Diretório Central dos Estudantes sido feita pelo voto direto dos estudantes, contrariando determinação do decreto Aragão que recomendava eleição indireta com participação dos representantes dos Diretórios Acadêmicos.
Naquele ano os estudantes de medicina tinham uma bandeira a mais na sua luta política. A oferta de vagas no curso era insuficiente para atender a demanda. Daí o surgimento da figura dos “excedentes”, candidatos aprovados nos vestibulares que não podiam matricular-se porque as faculdades não dispunham de vagas. Esse era especialmente um movimento reivindicatório dos estudantes da área médica. Por isso o entendimento de que nas suas organizações representativas não poderiam estar lideranças comprometidas com o sistema, alienadas da expressão ideológica que o movimento estudantil trazia em si, brigando com o governo pela democratização do ensino brasileiro.
Foi com esse discurso que João Roberto conseguiu a adesão da grande maioria dos votantes nas eleições do diretório da Faculdade de Medicina de João Pessoa. Aos adversários impunha um conceito de elitistas, lideranças estudantis apoiadas pela direção da escola e pela reitoria.
• esse texto faz parte da série COMO A PARAÍBA VIVEU O ANO DE 1968.
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