A II Assembléia Geral do Conselho Episcopal Latino Americano realizado em Medellín, na Colômbia, foi um marco importante na postura política da Igreja Católica.
O evento, que contou com a participação do Papa Paulo VI, foi impactado por um documento apresentado por Dom Helder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife. O documento foi elaborado por um padre belga, seu assessor, Joseph Comblin, que seria expulso do Brasil ainda em 1968. Nele se fazia uma avaliação crítica da Igreja da época, pregando um novo comportamento, mais voltado para as questões sociais.
Entre outras observações, Comblin afirmava:
“A Igreja adotou e continua adotando a mesma atitude de grandes proprietários: desconhece a existência das massas rurais e seu caráter humano. Nunca a Igreja fez tão pouco por uma categoria social. O clero é formado por pessoas assimiladas às classes altas”.
“A religião que se ensina ao povo é frequentemente uma religião primitiva, medieval, tipicamente subdesenvolvida”.
A reunião de Medellín propunha uma Igreja popular, fazendo opção pelos pobres, defendendo os direitos humanos, denunciando as injustiças sociais. Ficou decidido que as Comunidades Eclesiais de Base seriam o lugar para o encontro das classes que mais necessitavam de ajuda.
No mês de julho realizava-se no Rio de Janeiro a IX Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. As decisões do congresso de Medellín repercutiam na reunião dos bispos brasileiros. Dom Sebastião Baggio, em nome do Papa, na instalação dos trabalhos colocou que “ a Igreja precisava assumir uma posição corajosa, no propósito de servir ao povo de Deus num mundo em transformação. O humanismo cristão deve imitar Cristo em suas virtudes, pois fé, esperança e caridade necessitam de propósitos firmes, sem conformismos, mas com conscientização dos tempos”.
A CNBB daquele ano produziu o documento intitulado: “A vida religiosa no Brasil de hoje”, elaborado a partir de reflexões trazidas pelos bispos através de consultas a todas as ordens religiosas brasileiras. A Igreja católica oficializava uma tomada de posição frente aos problemas sociais, ressaltando que a missão pastoral se confunde com ação política no sentido de poder contribuir para a diminuição das desigualdades sociais e combater as injustiças. A Igreja engajava-se resolutamente na tarefa de aperfeiçoar-se sem prejuízo de sua missão final de preparar para a vida eterna.
A Igreja passaria então a ser um espaço de relativa liberdade para organização e ação dos movimentos sociais.
Frei Marcelino de Santana, um ativista político do sertão paraibano, considerou o manifesto da CNBB “um repto no sentido de que sejam afastados do panorama nacional os eternos politiqueiros e os demagogos que querem fazer calar a voz da Igreja para poderem explorar impiedosa e impunemente o povo”.
Disse ainda: “Acho que chegou a hora da decisão. Nenhuma força humana calará a Igreja, da qual o povo faz parte direta ou indiretamente. Quanto às perseguições, afirmo que a Igreja está acostumada a isto. Quanto mais forem as vítimas, mais vozes surgirão.
O povo do Nordeste, os estudantes, os trabalhadores, os operários, os cristãos todos, estão com Dom Helder Câmara, com Dom José Maria Pires, com Dom Fragoso e com todos esses profetas da atualidade. As forças dominantes estão em pânico, porque sabem que a Igreja não voltará atrás e não teme ameaças, pois está acostumada a sofrer.
Os jovens tem tido o apoio da Igreja na luta que empreendem atualmente por um mundo melhor. Os papas, em suas encíclicas, já traçaram o caminho a seguir. Os bispos tomam posição e tenho certeza de que é incontável o número dos que seguirão os verdadeiros representantes de Cristo”.
• esse texto faz parte da série COMO A PARAÍBA VIVEU O ANO DE 1968
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