A Paraíba acordou no sábado, dia seis de abril, em clima de apreensão. Os acontecimentos da semana deixaram todos intranqüilos quanto ao desenrolar da crise deflagrada.
Assustada, a população se dividia entre os que criticavam a postura dos estudantes e os que manifestavam um sentimento de solidariedade, tanto pela causa que defendiam, quanto pela forma violenta com que os atos públicos que promoviam foram reprimidos pela polícia. Todavia era unânime a inquietação. A incerteza do que poderia acontecer. Sem dúvidas a ordem pública foi abalada e isso deixava a todos preocupados.
A Sociedade Cultural de João Pessoa, promotora do II Festival Paraibano da Música Popular Brasileira, decidiu adiar a abertura do evento que estava programada para aquela data, temendo, segundo noticiaram os jornais da época, “a infiltração de manifestantes”.
Os estudantes, pressionados pelos impedimentos que o governo colocava no intuito de evitar suas manifestações, se sentiam meio atordoados quanto ao passo a ser dado sem baixar a bandeira de luta. Na véspera haviam sido expulsos pela polícia do seu “território livre”, o Restaurante Universitário, o ponto central do movimento. As forças repressivas do governo procuravam intimida-los e assim desmobiliza-los.
O governador vivia o constrangimento de contrariar sua história política com atitudes que, no seu íntimo, violentavam o espírito democrático que norteara sua vida pública. O regime de força instaurado no país, do qual era representante no Estado, impunha ao governante adotar medidas que o colocavam numa situação de desgaste perante a opinião pública. Por isso se determinou a fazer uma autocrítica, ainda que procurando justificar seus atos, em nome da responsabilidade institucional, de resguardar a ordem pública. Tentava minimizar os efeitos negativos na avaliação popular. A prática contrariando um discurso de toda uma vida dedicada a atividade política o deixava, inevitavelmente, num sentimento de auto-censura.
A pausa do fim de semana levantava a desconfiança de que a crise não estava finalizada.
A juventude paraibana, inserida num contexto nacional, não estava disposta a assumir uma posição passiva ante as arbitrariedades que vinham caracterizando o sistema de governo instalado desde 1964.
O espírito libertário que fazia do ano de 1968 o tempo da contestação, da renovação, da quebra de paradigmas, da revolução de costumes e de pensamentos, estimulava cada vez mais essa juventude a ser protagonista de um momento histórico que serviria de exemplo para as gerações que viriam a lhes suceder. A liberdade como princípio, a democracia como bandeira política, o amor, em todos os seus sentidos, como o sentimento maior da própria vida, faziam desses movimentos a chama viva do desejo de ver um mundo melhor. O medo não podia inibir a combatividade. Resistir era preciso. Nada, nem ninguém, poderia provocar a desistência de irem em frente na busca da consecução dos seus ideais.
• esse texto faz parte da série COMO A PARAÍBA VIVEU O ANO DE 1968
• comentários e informações adicionais devem ser encaminhados para o email: iurleitao@hotmail.com

