Abril/1968: A praça de guerrra

Concluída a cerimônia religiosa em sufrágio da alma do estudante carioca Édson Luis Souto, os universitários e secundaristas, ao saírem, se aglomeraram em frente à Catedral Metropolitana e deram início a uma passeata em direção à Avenida Duque de Caxias, em que pese o forte aparato policial montado pelo governo. Sob o comando do Coronel João Gadelha a guarnição militar, armada de baionetas, cassetetes e gás lacrimogêneo, se organizou para enfrentar os manifestantes com o propósito de inibir o ato público, obedecendo a proibição baixada por portaria da Secretaria de Segurança Pública divulgada naquela manhã, logo cedo.

Aos gritos de “assassinos, canalhas, traidores” e “abaixo a ditadura” os estudantes caminhavam pela Avenida General Osório, até a esquina onde funciona a Biblioteca Pública do Estado, onde promoveram o primeiro comício relâmpago. Dali seguindo para a Duque de Caxias.

A esta altura, avisado da caminhada estudantil, o comando da Polícia Militar isolou o Ponto de Cem Réis, onde estavam estacionadas três viaturas com vários militares. Ficaram na expectativa da chegada da passeata ao local em que se instalaram de prontidão.

Sem se intimidarem com a ameaça policial os manifestantes avançavam pela Duque de Caxias, a partir da sede do Esporte Clube Cabo Branco, cantando o hino nacional.

O comércio fechou as portas prevendo os distúrbios que inevitavelmente estavam prestes a acontecer.

Além das tropas de choque já colocadas no Ponto de Cem Réis, caminhões da Polícia se posicionaram na avenida em que os estudantes avançavam, nas proximidades do local onde hoje existe a Galeria Augusto dos Anjos. Os policiais desceram dos caminhões de armas em punho e rumaram para o confronto com a passeata.

O Ponto de Cem Réis transformou-se numa praça de guerra, com os policiais promovendo espancamentos de forma generalizada. Instalou-se o pânico. Correrias e gritos davam ao ambiente um clima de batalha desigual. Os policiais fortemente armados e os manifestantes sem qualquer condição de reação ao ataque. Prisões foram efetuadas. Os jornais da época falavam em sete detenções de estudantes, em sua maioria constituída de menores. Conseguimos identificar quatro deles: Francisco de Assis Medeiros Fernandes, 17 anos; Emanoel Jorge de Morais Santos, 16 anos; Jader Carlos de Lucena Neto, 17 anos, e Tibério Graco Pereira de Sá, universitário de engenharia, que viria em 1969 a ser atingido pelo Decreto-Lei 477, de 26 de fevereiro de 1969, que penalizava alunos considerados “subversivos” com o desligamento e a proibição de se matricularem em qualquer estabelecimento de ensino pelo período de três anos.

Os presos foram encaminhados à Delegacia de Investigação de Costumes –DIC, onde foram submetidos a interrogatório e depois conduzidos ao Quartel da Polícia Militar, sendo liberados à noite após mandado de segurança impetrado pelo advogado Bertino Queiroz e entregues a uma comissão de universitários.

Após o confronto os estudantes se encaminharam para o Clube do Estudante Universitáro – CEU, ou Restaurante Universitário, no local do atual Cassino da Lagoa. Concentrados no que chamavam de seu *território livre”, alternavam-se no uso da palavra, repudiando a forma brutal com que foram atacados pela polícia militar, responsabilizando o governador João Agripino pelo incidente.

O entorno do Restaurante Universitário foi ocupado por forças da polícia militar.

Novos e graves confrontos ocorreram no período da tarde como darei a conhecer no próximo texto a ser publicado.

• esse texto faz parte da série COMO A PARAIBA VIVEU O ANO DE 1968
• comentários e informações adicionais devem ser encaminhados ao email iurleitao@hotmail.com

 

 

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