Abril/1968: Punição e proibição

 

A “marcha do protesto”, ainda que tenha ocorrido sem maiores incidentes causou alguns problemas, gerou algumas crises e ensejou proibições.

O diretor do Colégio “Umderwood”, Dr. Archimedes Souto Maior, também juiz de direito, que funcionava em um prédio localizado na avenida Duque de Caxias, demolido para dar lugar a atual galeria Augusto dos Anjos, decidiu expulsar o aluno Aristeu Ulisses Pinheiro Madruga, primeiro secretário do grêmio daquela escola, pelo fato do mesmo ter procurado convencer seus colegas a abandonarem as salas de aula em sinal de luto pela morte do estudante carioca, apesar das admoestações em contrário feitas pelo dirigente do estabelecimento de ensino. Por maioria os alunos decidiram atender seu apelo e aderiram ao movimento.

O Grêmio José Lins do Rego do qual Aristeu era um dos seus diretores, hipotecou solidariedade ao colega punido, decidindo pela paralisação das aulas até que a expulsão fosse reconsiderada. Não há registros nos jornais da época se o diretor do colégio invalidou a expulsão anunciada, mas ficou explícita a demonstração de que o espírito de unidade estava presente em toda a comunidade estudantil. Tanto que outras entidades também se posicionaram a respeito, criticando a decisão do diretor do Underwood. Emitiram notas de insatisfação com a medida o Diretório Central dos Estudantes, os grêmios estudantis da secção Roger do Colégio Estadual de João Pessoa e da Escola Industrial e a União Pessoense dos Estudantes Secundários.

O dia dois de abril começava, então, com notícias de proibições. Primeiro o diretor do colégio Underwood que queria proibir seus alunos de participarem das manifestações estudantis. Depois surgiu a nota oficial do Secretário de Segurança, major brigadeiro Firmino Ayres, tornando pública a proibição oficial, por parte do governo, da realização de passeatas, comícios ou quaisquer atos públicos no Estado da Paraíba. Claro que estava cumprindo ordens vindas de Brasília.

Eis a nota:
“A Secretaria de Segurança Pública, em face das comunicações recebidas do sul do país, no sentido de que elementos estranhos à classe estudantil, aproveitam-se do seu estado emocional, decorrente da morte de um colega na Guanabara, para a prática de desordens, depredações, afronta às autoridades e atentado ao regime, faz ciente que não permitirá concentrações, passeatas e comícios neste Estado, a partir de hoje, até novas instruções e manterá a ordem pública que permita o normal funcionamento do comércio, indústria, estabelecimentos de ensino e demais atividades da sociedade.

Compreendendo a justa revolta dos estudantes, face ao injustificado crime de que foi vítima o colega, a Secretaria permitiu que no dia primeiro levassem o seu protesto às ruas desta cidade e Campina Grande, em passeatas que se processaram sem qualquer incidente.

O Governo do Estado espera contar com idêntica compreensão dos estudantes paraibanos e lhes solicita ajuda para que a ordem pública não se perturbe neste Estado, como vem ocorrendo em outras unidades da Federação”.

As difusoras e serviços de altofalantes de Campina Grande, ás primeiras horas da manhã, divulgavam ordens do Capitão Valdevino, delegado de Vigilância e Costumes daquela cidade, e do tenente coronel Joaquim Sitônio, da DIC, proibindo terminantemente concentrações estudantis.

Armava-se, portanto, o cenário dos confrontos que ocorreriam no dia da celebração da missa de sétimo dia pela alma do estudante carioca morto.

• esse texto faz parte da série COMO A PARAIBA VIVEU O ANO DE 1968.
• comentários e informações adicionais deverão ser encaminhados para o email iurleitao@hotmail.com

 

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