Conheci Zé Octávio no início de sua vida universitária utilizando as páginas da Tribuna do Povo, composta na única linotipo plantada na Duque de Caxias dos anos 1960. Eu estudava no Liceu e incursionava pela política estudantil, ele ainda aprendia na universidade onde um dia iria ensinar.
Aliás, José Octávio de Arruda Mello foi professor não apenas de nossa Universidade Federal, mas também da Universidade Federal de Pernambuco. Aposentado das UFPB e UEPB, leciona ainda no UNIPÊ. Escolheu a História para, através dela, explicar os fatos e a evolução da sociedade. Na missão fez-se Mestre e Doutor, sendo que os livros que publicou demonstraram, à saciedade, que escolheu o caminho certo. Daí merecer o respeitoso acatamento dos Institutos Históricos e Geográficos Brasileiro e Paraibano, bem como das Academia Paraibana de Letras e Associação Paraibana de Imprensa. Nesta última fincou as raízes do jornalista que nunca deixou de ser.
Este seu trabalho pretende homenagear a mídia paraibana na passagem do Dia da Imprensa e recebeu o título de História da História da Imprensa na Paraíba. É um dos ensaios mais curtos produzidos por quem, desde a era do rádio, tinha os longos comentários lidos na Rádio Arapuan pelo irmão Otinaldo Lourenço e ironicamente batizados de “ampla síntese”.
Começa ele por explicar que todos os fenômenos da sociedade comportam duas linhas de abordagem. Não seria diferente com a Imprensa, também objeto da História e da Historiografia, uma representando as formas de que se reveste – jornal, rádio, TV – bem como seus veículos, e a outra “a versão do fato histórico” na visão de analistas e autores, tomando como cenário os diferentes momentos da História.
A História da Imprensa paraibana é obra de poucos pesquisadores. Patrono de cadeira na Academia Paraibana de Letras, Alcides Bezerra, meu conterrâneo de Bananeiras, foi o pioneiro com “A Imprensa na Parahyba”, divulgado na Revista do IHGP de número 5, datado de 20 de maio de 1920. Mais modernamente, vêm Eduardo Martins e Fátima Araújo, para ficar apenas nos que se dedicaram com mais afinco a contar o nascimento e a morte de jornais e revistas que circularam na terra tabajarina, do Império à República, chegando aos dias atuais.
O autor também registra os trabalhos voltados para a História do Rádio e o seu papel ideológico, traço marcante da Imprensa do passado, dividida entre conservadores e liberais até se chegar às Rádios Comunitárias que ocupam as ondas de frequência modulada, em nosso interior.
Todos os historiadores são unânimes em apontar a Gazeta do Governo da Paraíba do Norte, de 1826, como o primeiro periódico de nosso Estado. A União, o mais antigo em circulação, data de 1893 e pertenceu originalmente ao Partido Republicano. Sobre o assunto há um questionamento até hoje não explicado: como um jornal partidário tornou-se propriedade do Estado? – Para o historiador Marcus Odilon, o tema virou “segredo de confessionário”, mas se afirmava, à época, que Álvaro Machado ou seu partido, que se confundia com o Governo, teria recebido uma “indenização polpuda”. Fátima Araújo, porém, credita a versão às más línguas, pois o fato nunca ficou provado.
O certo é que A União que no dizer de Odilon Ribeiro foi a “nau capitânea” que orientou a mídia na Paraíba durante muitos anos, é grande formadora de jornalistas. Para ele, porém, um jornal suspeito, pois sempre atrelado às instâncias do poder. Retirar a chapa branca de A União tem sido missão difícil mas não impossível. Quando, todavia, os interesses comerciais falam mais alto nas páginas das empresas jornalísticas e cada vez mais a ética se confunde com o caixa, vislumbro uma vantagem no jornal oficial: é do Governo e não nega.
Há uma lacuna no trabalho de Zé Octávio, talvez porque ainda não tenha sido escrita. A ação dos órgãos oficiais ou oficiosos, na censura à Imprensa. A censura interna, voltada para os interesses financeiros das empresas e a censura externa, acionada sempre nos períodos de exceção. Falta contar a história dos jornais e jornalistas perseguidos na Paraíba, seja no período de Estado Novo ou no tempo dos generais pós 64. A história da censura à Imprensa na Paraíba “resta por ser feita”, como diria Alcides Bezerra.
Fica a sugestão para o competente José Octávio de Arruda Mello, historiador oficial apenas para a língua irônica e impiedosa que todos conhecemos.
No essencial, J. O. é um revisionista que se esforçou em introduzir na Paraíba cientistas sociais como Vicente Licínio Cardoso, José Honório Rodrigues, Nelson Werneck Sodré, Geraldo Ireneo Joffily e Gabriel Bittencourt. É deles que uma vez mais se vale para composição das páginas que se seguem.
*Prefácio do livro “A História da História da Imprensa na Paraíba”