Nesta quarta-feira de chuva esperada, um fato me chamou a atenção, que foi o e-mail produzido por um dos mais argutos produtores culturais deste Pais, de nome Gilvane Sabino, tratando de questoes da cultura e da musica a partir das crises da Paraiba. Como ele é paraibano, conhece profundamente a produção de Recife em diante e tem vinculo profundo com nossa arte, eis o que ele tem a dizer:
Um momento de reflexão
Nesses dias ouvi no rádio uma gravação de um dupla sertaneja cantando a linda canção Tocando em Frente, de Renato Teixeira, em que fala das manhas e das manhãs, do sabor das massas de das maçãs, etc. Lembro também de um hit de Reginaldo Rossi, As Quatro Estações, em que, regravada na voz de Geraldo Azevedo, declama versos lindos sobre o outono, a primavera, inverno e verão.
Além de outros que misturam clássicos sertanejos interpretados por ícones da música pop com duplas caipiras e agora remixadas para o forró plástico.
O que tudo isso significa para nós? Sem dúvida, um chamado. Em que devemos nos despir do preconceito, da mania de querer ser elite e burguesia sem carecer contato com o povo, com as massas, com os semelhantes.
Como produtor cultural tive oportunidade na minha vida profissional de trabalhar ao lado de grandes personagens da vida artística nacional como Luiz Gonzaga, Gonzaguinha, de quem me tornei amigo, Nando Cordel, Chico Cesar ainda no começo de carreira em João Pessoa, Simone, e muito outros. Em certos dias viajei ao lado de Dominguinhos, Sivuca, Novinho da Paraíba, Flavio José. Noutros dias, com as bandas Mastruz com Leite, Limao com Mel, Carícias, etc. Pude conversar com muitos artistas e músicos de todas as classes que se possa imaginar, inclusive, da música clássica, maestros e tal.
A informação que me chega refletir é de pura essência democrática. Nunca consegui imaginar que um dia pudesse entender Egberto Gismonti tocando um clássico do folclore sertanejo de Alagoas e ouvir esta mesma canção interpretada por Alceu Valença ou Elba Ramalho e depois por bandas de forró de plástico. Estes expoentes nos levam a relfexão mais profunda de nossas origens, de nossa cultura. Enfim, o que é cultura? Como discriminar?
Como querer dizer que isto é válido e isto não? Quando, um artista poderá se asperar indicar o certo e o errado sendo ele mesmo fator de inspiração variável no mundo das idéias?
Fomos nós, com o querido Fernando Teixeira, que resolvemos abrir as portas do teatro Santa Roza em inesquecível noite para juntar num só palco Cachimbinho e Geraldo Mousinho, Quinteto Itacoatiara, Bráulio Tavares, Jarbas Mariz, Jaguribe Carne, Dida Fialho e muito outros. Aquela experiência ousada em desbravar os caminhos da nossa música, deixou lições de que é possível respeitar pessoas, artistas e tendências.
O papel do governo é de administrar nunca de separar, ou discriminar. O mesmo papel moeda que paga impostos vindo das mãos daquele que adora o forró de plástico, é o que patrocina o vinho da mesa dos que imponderavelmente classificam as massas na tentativa de exclui-las. Antes de discriminar, deveríamos lançar olhar sobre aquilo que deixamos de fazer. Colaborar para oferecer ao povo um qualidade melhor de instrução e possibilidade de educação e escolha.
Projetos que contemplassem, por exemplo, poder levar ao ar através do rádio, música melhor letradas, as chamdas mpb, etc, de forma a populariza-las. A TV Globo, tão criticada, consegue no horário nobre colocar excelentes propostas como as músicas de Maria Rita, Tom Jobim, Cazuza, Chico Cesar, e misturam isso aos forró de Elba Ramalho, Nando Cordel, e outros e Aviões tocando ” você não vale nada mais eu gosto de você..” e isso vira um sucesso.
Esse é um relato da mistura cultural de nosso país. A mistura por exemplo, que ha em Recife, capaz de aglutinar num mesmo bairro da cidade antiga, Jazz, Reggae, Pagode, Frevo, Rock, Maracatu, Coco, Forró e outros rítmos, como temos no exemplo do carnaval e durante todo o ano.
Resta-nos refletir. Dar a Cesar o que é de Cesar, e abrir nossas mentes para a realidade desde o pé-de-serra até o pagode russo, ou o forró de plástico.