Eleito pela Assembléia para o cargo de Governador do Estado da Paraíba, Ernani Satyro enfrentou um pequeno grupo de opositores. Aguerridos e competentes, não perdoavam qualquer equivoco do Governo. Os três principais, todos do partido governista, a ARENA, eram Waldir dos Santos Lima, Eilzo Matos e Edivaldo Motta este ultimo, trazendo de Patos as razões de sua hostilidade ao Chefe do Executivo. O grupo arenista rebelde foi apelidado pela imprensa de Tupamaros, numa referencia aos guerrilheiros uruguaios, hoje com um de seus membros da Presidência daquele país do final do mapa. Egidio Madruga era Presidente da Assembléia. Como represália, designou um único gabinete para os Tupamaros, localizado no final do corredor do primeiro pavimento da casa: era o seu bunker. Ali eram tramadas as ações daqueles parlamentares, sempre destacadas na imprensa, que, naquele tempo, mesmo no auge da ditadura militar, tinha espaço para os oposicionistas locais, desde que o alvo não fosse o poder central.
As sessões do Legislativo eram agitadas e os governistas não negavam apoio ao ocupante do Palácio, travando-se um debate que encantava as galerias, ávidas por assistir uma disputa que satisfizesse sua alma contrariada e contida pelo regime. O Governador, por outro lado, não deixava nada sem resposta e em coluna assinada em todos os jornais SEMPRE AOS DOMINGOS, costumava premiar os seus acusadores com contestação refinada e linguagem acadêmica muito do seu feitio. Suas respostas aos Tupamaros, às vezes, levava alguns ao dicionário já que a internet não existia. Quando denominou seus opositores de “saltimbancos de opereta”, houve quem achasse que ele os comparava a assaltantes de bancos. Já os “pescadores de águas turvas” foi mais fácil de entender. Em represália, voltavam os Tupamaros com o anuncia de uma queima dos livros escritos por Ernani, na praça João Pessoa. Para eles, os romances Mariana e o Quadro Negro eram literatura de segunda e só mereciam o fogo da inquisição.
A discussão jurídico-regimental era enfrentada por Waldir dos Santos Lima. Certa feita, anunciou que rasgaria o Regimento Interno da Assembléia, para ele, desrespeitado todos os dias pelo presidente Egidio, “na ânsia de agradar ao Palácio”. Egidio, na Presidência, desafia o rebelde arenista e proclama ao microfone: rasga! Rasga que eu quero ver!!!
Waldir se aproxima do microfone de aparte, único na época, e transforma o Regimento em pedaços. O presidente não se contém e, de dentes cerrados, deixa escapar…
-Fela da puta…não é que ele rasgou mesmo?
Como se vê, o episódio do ex-futuro deputado Ricardo Barbosa ao protestar contra sua desconvocação rasgando página do Diário da Assembléia já teve precedente mais grave. Ambos, porém, como soe acontecer, sem qualquer punição. Parlamento não foi feito para punir. Parlamento é paralamentar…