O sentimento de Cícero

Logo que soube da decisão do DEM de apoiar a pré-candidatura do prefeito Ricardo Coutinho ao Governo do Estado, Cícero Lucena reagiu com contemplação finita diante da realidade humana e política à frente: acreditava no que via, mesmo que antes tenha passado um tempo admitindo que pudesse contar com amigos leais no exercício da política.

De fato, ele até os tem – mas no nível pretendido no processo histórico – ah está provado que são poucos.

A celebração em torno de Ricardo, mais do que pragmatismo normal na vida partidária serviu, como ele descreveu, de punhalada inaceitável e definitiva na crença que nutria em relação a algumas pessoas e conjunturas.

De olho no futuro, no imediatismo dos objetivos, Cícero até lacrimejou ao atestar que os valores nutridos por quem sempre deu afago e lealdade se transformaram em pó, algo desprezível, sem nenhum valor humano, como se a história estivesse desabando sobre sua memória e sentimento.

Em quem crer mais numa hora dessas? – teorizou olhando ao redor vendo poucos, além da família solidária, assumindo para si um novo momento de crença – somente em Deus? – e de apego às coisas imateriais, onde não compreende o ódio se sobrepondo à razão e a coerência sendo tragada pelo oportunismo.

De uma vez só, como deixou transparecer, Cícero reviveu muitos e difíceis momentos de sua vida – desde quando resolveu adotar projetos coletivos, lutas em desvantagem e provação de instantes de dor, mas que nunca abdicou da solidariedade, mesmo quando seduzido por outros atores também interessados na cizânia e na discórdia.

Com a celebração do DEM faltando apenas o anúncio por parte de Cássio em favor de Ricardo Coutinho, Cícero Lucena passa a conviver com uma nova realidade de relações e de propósitos transformando de agora em diante a sua luta partidária como exercício diferente, mas determinado a ir até o último momento do processo eleitoral, sem renegar a solidariedade que lhe faz falta hoje e ontem foi fundamental para a existência de muitos atores da vida partidária estadual.

O senador está afetado pelo desencanto, mas isso pode servir de oportunidade rara para gerar algo como a Fênix saindo das cinzas para ser o elemento determinante da disputa em 2010, exceto queira deixar de vez a vida pública.

Seja como for, podem anotar, das decisões de Cícero vão depender muitos futuros, até dos que o renegaram à solidão da Ópera do Mago anunciada.

Cíço e seu cajado têm uma difícil, mas espetacular trilha à frente, de propor ao Estado uma outra forma de pensar e agir em favor das futuras gerações porque as atuais reproduzem acertos e erros já manjados e conhecidos.

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