A nobreza de minha gente pobre

Nas observações comuns em tempo de carnaval impressiona a multiplicidade de manifestações ricas e pobres a expor o torpor coletivo de muita gente neste País tomado pelos valores constantes do tríduo de Momo.

Nos últimos tempos, como de sorte há anos, o carnaval atrai concomitantemente à descontração e a irreverência uma forte carga de sensualidade – no caso da Bahia e Pernambuco com incitação publica ao amasso – e até exageros quando a bebida toma conta.

Quem comanda, entretanto, o carnaval na forma de macro exposição é a mídia que, ao seu modo e estratificação econômica, tipifica a escala a cobertura a partir dos valores produzidos nos vários ambientes – do alto luxo do sambódromo do Rio e São Paulo à multiculturalidade de Salvador no mesmo patamar de Recife e Olinda – estes últimos mais abertos do que o modelo baiano dos abadás.

A riqueza desses centros se contrasta com outros cenários do País incluindo nele o Desfile das agremiações carnavalescas de João Pessoa e, se quiser, também de Campina Grande.

Sempre que compareço à Av Duarte da Silveira, palco do desfile na Capital, acabo tomado por sentimentos contraditórios porque, se me animo e exalto a força extraordinária dos carnavalescos em cada escola de samba, tribo indígena ou agremiação de frevo em traduzir seus esforços em alegria pública, do outro lado bate uma dor danada ao atestar que a nobreza dessa gente não esconde a fragilidade de suas estruturas.

O carnaval oficial de João Pessoa precisa ser revisto na sua inteireza. Já não se justifica que continuemos sem uma reformulação estrutural e estética capaz de dar maior brilho em termos qualitativos porque em muitos casos a apresentação de nossos nobres carnavalescos não esconde valores caricatos, mal resolvidos esteticamente, com fantasias de dar dó.

Sei que a partir de amanhã pouco se falará sobre o assunto, mas já é chegada a hora da Federação Carnavalesca dar um grito de rebeldia na direção de partir já agora para a formulação de uma nova estrutura de nosso Carnaval Tradição – tanto em termos de formatação de projeto para captação de recursos como, sobretudo, criação de meios com o SEBRAE/PB e/ou outros instrumentos de capacitação para reensinar nossos carnavalescos a produzir melhor suas fantasias, elaborar com visão atualizada as várias facetas de um desfile, etc.

Não significa romper bem brigar com a Prefeitura – hoje quem banca a festa com pouco mais de R$ 250 mil, mas estabelecer nova forma de sobrevivência sem a cultura de pedintes e de empregados sazonais que se alternam na condição de carnavalesco e comissionado da Prefeitura não permitindo assim um novo estágio de altivez plena.

Como dizia Joãozinho Trinta, o carnavalesco revolucionário do Brasil, quem gosta de pobreza é intelectual, pobre gosta mesmo é de luxo.

Se é assim chegou a hora de tirar nosso Carnaval Tradição da pindaíba.

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