Em tom de despedida, Haddad renova críticas à Selic e projeta cenário eleitoral após sair da Fazenda; “gostaria de ter ido além”

Foto: Diogo Zacarias/MF

Em participação no evento do BTG Pactual nesta terça-feira (10), em São Paulo, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), traçou um diagnóstico crítico sobre o atual patamar dos juros reais no Brasil. Em tom de balanço, o ministro detalhou as limitações políticas e econômicas enfrentadas em sua gestão, enquanto projetava o cenário para as próximas eleições. Haddad também aproveitou o fórum com investidores para reforçar o compromisso com a agenda fiscal e discutir a modernização do sistema de garantias bancárias.

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Críticas ao juro real e defesa do Banco Central

Haddad afirmou não enxergar justificativa para o atual nível dos juros reais praticados no país. Segundo o ministro, esse patamar exerce pressão direta sobre a dívida pública, produzindo um efeito que o governo não consegue neutralizar “com nenhum nível de superávit primário”. Atualmente, a Selic está fixada em 15% ao ano.

Apesar da crítica, ele ponderou que é fundamental preservar a institucionalidade do Banco Central. “É muito importante cuidar do Banco Central”, afirmou, ao argumentar que a autarquia pode tanto contribuir para o desenvolvimento quanto causar prejuízos relevantes aos governos e ao país, a depender de sua atuação.

Resultados fiscais e limites impostos pelo Congresso

No mesmo contexto, Haddad avaliou que os resultados fiscais vêm apresentando melhora consistente. Ainda assim, ressaltou que o avanço depende de fatores que extrapolam a atuação do Ministério da Fazenda. Ele afirmou que gostaria de entregar indicadores mais positivos, mas destacou que parte desse esforço passa necessariamente pelo Congresso Nacional.

Segundo o ministro, o cenário fiscal atual carrega compromissos herdados. “Gostaria de ter ido além. Agora, você tem que negociar com o Congresso, que tinha acabado de aprovar o aumento de despesas”, disse, ao mencionar compromissos como o Fundeb e regras do Benefício de Prestação Continuada (BPC), definidos em gestões anteriores.

Banco Master expõe fragilidades do FGC

Haddad também abordou os desdobramentos da liquidação do Banco Master, acusado de fraudes, e seus impactos sobre o Fundo Garantidor de Créditos. Para o ministro, o episódio revelou falhas estruturais no arcabouço de proteção do sistema financeiro.

“A legislação não se mostrou suficientemente robusta para evitar uma operação como essa”, afirmou. Embora tenha destacado que o caso não gerou uma crise sistêmica, Haddad reconheceu que o episódio ganhou grandes proporções e envolveu mais de uma instituição.

De acordo com o ministro, medidas emergenciais relacionadas ao FGC já estão em discussão e parte delas precisou passar pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Ele relatou que o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, o procurou diversas vezes para tratar do tema e alinhar votos no colegiado.

No fim de janeiro, o CMN aprovou alterações no estatuto do FGC, incluindo o aumento das contribuições dos bancos. Conforme noticiado pelo Valor Econômico, o conselho do fundo aprovou um plano para recompor o caixa após as indenizações do caso Master, com antecipação de contribuições e criação de uma alíquota extraordinária.

Para Haddad, no entanto, essas medidas não resolvem o problema de fundo. “Uma reforma mais estrutural está sendo discutida, porque efetivamente ninguém quer passar por esse aperto outra vez”, afirmou.

O ministro disse que técnicos do Banco Central mantêm diálogo com o sistema financeiro regulado para buscar um equilíbrio entre concorrência e maior rigor regulatório. “Nem tanto o mar, nem tanta terra. Ninguém pode querer manter regras que permitiram esse descalabro voltar a acontecer”, declarou.

Segundo Haddad, o objetivo é fechar brechas que permitiram fraudes e práticas irresponsáveis, preservando o funcionamento do sistema financeiro. Ele reiterou que, apesar da gravidade, o caso não se transformou em crise sistêmica, embora a liquidação de outras instituições mostre a relevância dos efeitos. “Temos que aprender com esse caso”, disse.

Pressões do cargo e balanço pessoal

Ao comentar as cobranças do mercado financeiro, Haddad afirmou compreender o “clamor da Faria Lima”, mas destacou as limitações pessoais e institucionais do cargo. “Eu entendo da Faria Lima, mas assim, como dizem os baianos, eu só sou um só”, afirmou.

Ele classificou o posto de ministro da Fazenda como “um pouco desafiador”, mas relativizou a fama negativa. “O pessoal fala que é o pior emprego do mundo e eu falo, eu recomendo para todo mundo se conseguir ser ministro da Fazenda, tentar”, disse, ao destacar a experiência de conhecer o país a partir da função.

Eleição de 2026 e o campo bolsonarista

No campo político, Haddad minimizou a importância do nome que representará o bolsonarismo nas eleições de 2026. Questionado sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), afirmou que ambos têm peso semelhante junto a esse eleitorado.

“Para o eleitor do bolsonarismo, aparentemente, tanto faz quem vai representar o Bolsonaro. Não sendo ele, é quem ele escolher”, declarou. Segundo o ministro, não há precedentes no país de uma transferência de votos tão automática quanto a observada no campo liderado por Jair Bolsonaro.

Sucessão no PT e perspectivas para o país

Haddad também afirmou que, independentemente do resultado da eleição de 2026, o PT passará por um processo de sucessão em 2030. Ao falar sobre ambições pessoais, evitou se projetar como candidato futuro.

Ao final, o ministro fez um balanço dos últimos 15 anos, especialmente do período entre 2013 e 2022, que classificou como “uma década muito difícil”. Para ele, o país começa a sair desse ciclo e a construir uma nova agenda. “Realmente acho que não está difícil de resolver”, afirmou, ao defender o compromisso com a democracia e o abandono do negacionismo como bases para a continuidade do avanço nacional.

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