A realidade de equilibrar a gestão de um negócio com a chefia do lar é o cotidiano de mais da metade das empreendedoras brasileiras. Segundo dados do Sebrae/PB referentes a 2025, o Brasil conta com 10,4 milhões de empresárias, sendo que 52,5% delas são as principais responsáveis pelo sustento e organização de seus domicílios. No cenário paraibano, essa estatística é ainda mais expressiva, atingindo o percentual de 53,6%. Atualmente, o estado soma 160 mil mulheres à frente de empresas, o que representa 35% do universo empreendedor local.
Para essas mulheres, a trajetória nos negócios vai além do lucro; trata-se de um movimento de transformação social e busca por autonomia. No sertão paraibano, em Pombal, a empresária Wyama Medeiros ilustra esse desafio ao conciliar as responsabilidades financeiras e estratégicas de sua loja de calçados, a Pezzato, com o equilíbrio emocional necessário para manter a operação.
“O maior desafio é carregar responsabilidades, financeira, emocional, estratégica, e ainda manter o sorriso e a confiança. Mas aprendi que o segredo não é ser forte o tempo todo. É ser resiliente. Conciliar empresa e vida pessoal exige organização, mas principalmente maturidade. Eu entendi que preciso cuidar de mim para cuidar do meu negócio”, conta a empreendedora.
A experiência de Wyama no mundo empresarial a levou a entender que o isolamento é um dos maiores obstáculos para a mulher que decide empreender. Motivada por redes de apoio que conheceu em outros municípios, ela fundou a Associação Sertanejas em Rede, em Pombal. A iniciativa busca fortalecer o comércio local liderado por mulheres, partindo da premissa de que, ao crescer em conjunto, a empreendedora transforma não apenas sua realidade financeira, mas também sua comunidade e autoestima.
“Eu percebi que quando uma mulher empreende isolada, ela enfrenta mais medo. Mas quando ela empreende em rede, ela encontra força. Apoiar outras mulheres é algo que toca profundamente meu coração. Porque sei o quanto o apoio certo pode mudar uma história. Quando uma mulher cresce no seu negócio, ela transforma sua família, sua autoestima e sua comunidade. Para mim, sucesso de verdade é quando crescemos juntas”, frisou.
No litoral sul do estado, em Pitimbu, a história de Josefa Almeida reforça que o empreendedorismo também é um caminho para recomeços. Após quatro décadas dedicadas à agricultura, Josefa decidiu, aos 51 anos, investir em seu talento na cozinha. Mesmo enfrentando o ceticismo inicial de terceiros e as dificuldades impostas pela pandemia, ela consolidou a Chácara Cozinha da Roça. Hoje, além de gerar renda própria, seu restaurante emprega outras sete mulheres e funciona como um ponto de escoamento para o artesanato regional, provando que o impacto de um negócio feminino se ramifica por toda a vizinhança.
Apesar dos avanços e do crescente espaço de fala ocupado pelas mulheres, o cenário ainda apresenta barreiras estruturais significativas. A informalidade atinge 70,5% dos negócios liderados por mulheres na Paraíba, muitas vezes reflexo da necessidade de empreender sem o preparo técnico ideal devido à urgência financeira. Humara Medeiros, gerente do Sebrae/PB, ressalta que a dupla ou tripla jornada — dividida entre o papel de mãe, esposa e gestora — ainda dificulta a profissionalização plena. No entanto, ela enfatiza que o empreender tem sido a principal ferramenta de empoderamento e posicionamento dessas mulheres na sociedade moderna.