Uma investigação da Polícia Civil da Paraíba revelou um esquema que, segundo os investigadores, utilizava a compra e venda de cavalos, a contratação de artistas e empresas de fachada para lavar dinheiro proveniente do tráfico de drogas. Os detalhes da operação foram apresentados pelo Fantástico, da TV Globo, neste domingo (28).
Entre os principais alvos está Ivan Moura, conhecido como “Mauro Maromba”, apontado pela polícia como integrante da estrutura financeira e operacional da facção Nova Okáida, uma das principais organizações criminosas investigadas na Paraíba. Segundo a apuração apresentada pelo programa, o grupo teria movimentado cerca de R$ 150 milhões em dois anos.
Uma das estratégias identificadas pelos investigadores envolvia a compra de cavalos da raça Quarto de Milha, utilizados em competições de vaquejada. Ivan teria adquirido um animal em um leilão que levava a marca do cantor Wesley Safadão, em parceria com Yago Cavalcanti, que já foi candidato a vereador em Campina Grande.
Yago, segundo a polícia, já havia comprado outros quatro cavalos do mesmo haras por aproximadamente R$ 1 milhão e mantinha 15 animais da raça. A investigação aponta ainda que ele montou um haras no Rio Grande do Norte e que alguns animais eram negociados por valores considerados inflacionados pelos investigadores.
Em uma conversa obtida pela polícia, Ivan alerta Yago sobre os preços praticados nas negociações. Em outro trecho, Yago afirma que posteriormente informaria quanto o animal valeria “na minha mão”.
Para o delegado Lucas Rothardand, responsável pela investigação, os negócios envolvendo os cavalos teriam sido utilizados para transformar recursos de origem ilícita em patrimônio aparentemente regular.
“O leilão de cavalo em si, para Yago e para Ivan, foi visto como uma forma de fazer uma automonetização sem uma contrapartida de fiscalização”, afirmou o delegado ao Fantástico.
O coordenador da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), Afrânio Brito, afirmou que os investigados buscavam se aproximar de pessoas e ambientes considerados socialmente respeitados.
“Tentaram a todo tempo se aproximar da questão do cavalo, da questão de pessoas sérias que usam o cavalo para tentar levar, catapultar o seu nome no meio da sociedade e estavam conseguindo ganhar uma certa credibilidade com isso”, disse.
Wesley Safadão não é investigado
O leilão tinha a marca do cantor Wesley Safadão, que participou do evento. De acordo com a reportagem, como os animais foram arrematados à distância, os compradores receberam um vídeo do artista agradecendo pela aquisição, algo apontado como habitual nesse tipo de evento.
Questionado pelo Fantástico sobre uma eventual investigação contra Safadão, o delegado Lucas Rothardand afirmou que o cantor não é investigado.
“Não. Nem nenhum fornecedor está verificado como investigado nessa investigação”, declarou.
A assessoria do cantor informou que os arremates são realizados ao vivo, por meio do contato dos interessados com a leiloeira, e que não houve contato direto entre Safadão e os compradores.
Grupo também buscava entrar no mercado de shows
Outra frente identificada pela investigação envolvia o mercado de entretenimento. Segundo a polícia, Yago Cavalcanti também teria atuado no empresariamento de cantores de forró e buscado contratos de apresentações em prefeituras do Nordeste.
Em um áudio interceptado pelos investigadores, Yago fala sobre a necessidade de conseguir contratos com administrações municipais para aumentar os ganhos.
O suspeito aparece ainda em um clipe de um artista que teria sido agenciado por ele. A defesa do cantor afirmou que ele buscava encerrar o contrato e que não participou nem tinha conhecimento de eventuais atividades ilegais atribuídas a Yago.
Segundo a investigação, a atuação no mercado de shows seria outra forma de movimentar recursos e dar aparência legal ao dinheiro obtido com o tráfico de cocaína, crack e skank.
Ivan é apontado como integrante da estrutura da Nova Okáida
Além das operações financeiras, a polícia afirma ter identificado Ivan Moura em conversas relacionadas ao comércio de drogas e armas. Segundo o delegado Lucas Rothardand, ele teria passado a assumir funções relacionadas ao controle financeiro e a pontos de tráfico na região do Acácio Figueiredo, em Campina Grande.
“A gente identificou que ele era um conselheiro rotativo da Nova Okáida”, afirmou o delegado.
Mensagens e áudios interceptados também mostram, segundo os investigadores, conversas entre Ivan e Naudivânio Ferreira, conhecido como “Lourinho” e apontado como chefe operacional da facção. Ele morreu durante um confronto com a polícia.
Em uma das conversas, Ivan reclama da qualidade de uma droga chamada de “óleo”, termo utilizado por ele para se referir ao crack.
A investigação também aponta negociações envolvendo armas de uso restrito. Em outro áudio, Ivan teria autorizado uma ação violenta contra um homem, afirmando que advogados seriam acionados posteriormente para resolver a situação.
Empresa movimentou R$ 144 milhões em quatro meses
A investigação também alcançou Miriam Ferreira, esposa de Ivan. Conforme apresentado pelo Fantástico, ela declarava trabalhar como vendedora e tinha renda informada de R$ 1.412.
Os investigadores, porém, descobriram que Miriam havia aberto uma empresa que, segundo a polícia, funcionaria como fachada. Em apenas quatro meses, a conta vinculada ao negócio movimentou R$ 144 milhões.
A movimentação financeira faz parte das provas usadas pela investigação para sustentar a suspeita de lavagem de dinheiro.
A polícia afirma que os recursos eram utilizados para financiar uma vida de luxo, com veículos, imóveis em condomínios fechados e jet-skis.
Em vídeos publicados pelo próprio Ivan, ele aparece exibindo bens de alto valor. Em uma das gravações, afirma que determinado veículo custava quase R$ 500 mil.
Ivan foi encontrado escondido dentro de uma cama
A ostentação, segundo a investigação, acabou chamando a atenção das autoridades. Durante a operação que desarticulou o grupo, 13 suspeitos foram presos, entre eles Yago Cavalcanti, localizado enquanto tentava fugir por uma estrada da Paraíba.
Ivan Moura também foi preso, mas de uma maneira inesperada. De acordo com Afrânio Brito, coordenador da DRE, os policiais encontraram o suspeito escondido dentro do box de uma cama.
“Começamos a revistar a casa e o cachorro do nosso canil sentou do lado da cama. E, quando levantou a cama, era um box, aqueles tipo de um baú, né? Ele tava dentro”, relatou.
Miriam Ferreira também foi presa durante a ação.
A defesa do casal afirmou que todas as medidas judiciais estão sendo adotadas e que os fatos serão esclarecidos. A defesa de Yago Cavalcanti não foi localizada para comentar a prisão.
A Justiça autorizou o bloqueio de até R$ 144 milhões nas contas dos investigados. Eles podem responder por organização criminosa, tráfico de drogas, comércio ilegal de armas e lavagem de dinheiro.
Ao final da reportagem, o delegado-geral André Rabelo afirmou que a investigação busca atingir também integrantes responsáveis pela estrutura financeira das organizações criminosas. “Esse modelo de prender só aquele pequeno bandido que está começando no crime, isso já não está dando a resposta necessária”, afirmou.
Para Afrânio Brito, a investigação mostrou uma tentativa de conciliar uma imagem de ostentação e inserção em ambientes de alto padrão com atividades criminosas. “Ele vivia no mundo do glamour, mas ele também se inseria no crime”, concluiu.
