Flávio Bolsonaro viajou em jatinho que tinha empresa de Daniel Vorcaro entre proprietários

Senador estava com a família em voo da Flórida para Brasília; aeronave também foi usada por Alexandre de Moraes meses depois

A “tática diversionista” adotada pelo candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro, para tentar desviar a atenção de seu envolvimento no caso Dark Horse dificilmente produzirá os efeitos que deseja. Passados mais de três meses desde a revelação de seu pedido de dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, supostamente destinado ao financiamento de um filme biográfico sobre seu pai, e diante da ausência, até agora, de documentação capaz de demonstrar de forma convincente a aplicação dos R$ 61 milhões recebidos, o candidato responde às indagações dizendo que o assunto é “página virada” e que quem deve prestar contas é Lula. Siga o canal do WSCOM no Whatsapp. Como assim? O que o presidente Lula tem a ver com as questões que envolvem Flávio Bolsonaro? Recorre-se, mais uma vez, à velha estratégia de responder às acusações dirigindo a pergunta para outro lado: “E o Lula?”. É como se a simples menção ao presidente fosse suficiente para apagar as dúvidas existentes. Não é. O assunto não pode ser considerado página virada enquanto permanecerem sem respostas perguntas fundamentais. O romance ainda está nas primeiras páginas, e há muito conteúdo a ser conhecido. Talvez seja justamente isso que incomode: a possibilidade de que as páginas seguintes revelem informações que não sejam bem recebidas por aqueles que defendem o candidato. As questões continuam à espera de esclarecimentos. Qual foi o roteiro do dinheiro recebido? Como os recursos foram efetivamente aplicados? Por que parte do dinheiro teria sido enviada para uma conta nos Estados Unidos administrada por um advogado ligado a seu irmão, que enfrenta problemas com a Justiça ? São perguntas que não podem ser respondidas simplesmente com um “e o Lula?”. Quem pretende disputar o mais importante cargo da República precisa assumir a responsabilidade de esclarecer fatos que lhe dizem respeito. A candidatura exige, além de discursos e promessas, transparência e disposição para prestar contas. Enquanto essas perguntas permanecerem sem respostas convincentes, a chamada “página virada” continuará aberta. A tática diversionista, portanto, não resolve o problema. Apenas tenta mudar o foco daquilo que realmente precisa ser esclarecido.

Um jatinho utilizado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em janeiro de 2025 tinha entre os proprietários, à época, uma empresa que contava com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, em seu quadro societário. A informação foi divulgada pela revista piauí, a partir do cruzamento de registros de tráfego aéreo e dados aeroportuários.

O voo ocorreu em 19 de janeiro de 2025, quando o Legacy 650, de prefixo PP-NLR, saiu do Aeroporto Internacional de Fort Lauderdale-Hollywood, na Flórida, com destino a Brasília.

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Flávio estava acompanhado da mulher, Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro, e das duas filhas. Também viajou no mesmo voo o advogado e empresário Willer Tomaz, apontado pela piauí como amigo do senador.

Participação de Vorcaro na aeronave

Segundo a reportagem, a empresa Prime You, da qual Vorcaro era sócio naquele período, possuía um terço das cotas do Legacy 650. A participação teria sido adquirida no fim de 2024.

A aeronave era operada pela Prime Aviation Táxi Aéreo e Serviços. Vorcaro permaneceu como sócio da Prime You até setembro de 2025.

Ainda conforme a revista, cada uma das três participações de 33,33% na aeronave estava avaliada em US$ 5,5 milhões em maio de 2025, segundo relatório da Polícia Federal citado pela publicação.

Willer Tomaz também possuía uma das três cotas do avião por meio de uma empresa.

Relação com Willer Tomaz

A viagem entre Fort Lauderdale e Brasília já havia sido noticiada anteriormente pelo jornal O Globo. A nova apuração da piauí identificou a aeronave utilizada por meio da análise de registros históricos de tráfego aéreo, dados de movimentação aeroportuária e informações do Registro Aeronáutico Brasileiro.

Em declaração à revista, Tomaz confirmou sua participação na propriedade do jatinho. Segundo ele, sua cota era administrada pela Prime You.

O advogado afirmou que os voos eram privados e não remunerados e que, quando havia assentos disponíveis, pessoas conhecidas com o mesmo destino eram convidadas a embarcar sem pagamento ou contrapartida.

Tomaz também declarou que só soube em abril de 2026 que Vorcaro havia adquirido participação na aeronave. De acordo com sua versão, após tomar conhecimento da sociedade, decidiu denunciar o contrato e passou a manter uma disputa judicial com a Prime You.

Ele afirmou ainda que não conhecia Vorcaro pessoalmente e negou ter mantido negócios com o ex-banqueiro.

Avião também foi usado por Alexandre de Moraes

O mesmo Legacy 650 voltou a aparecer em uma apuração envolvendo uma autoridade pública meses depois.

Em agosto de 2025, o avião foi utilizado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), cerca de sete meses após o voo realizado por Flávio Bolsonaro.

A aeronave também aparece em outras informações levantadas pela piauí sobre relações empresariais envolvendo pessoas próximas a Flávio Bolsonaro.

A revista havia divulgado anteriormente que o senador utilizou, durante a campanha presidencial, um apartamento em São Paulo pertencente a uma empresa de Willer Tomaz. O imóvel havia sido anteriormente ligado a Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro.

Outra apuração da publicação apontou conexões envolvendo uma propriedade utilizada pela família Bolsonaro em Angra dos Reis e administrada pela Prime You.

As informações sobre as relações empresariais envolvendo Vorcaro, o Banco Master e pessoas ligadas ao meio político fazem parte do conjunto de fatos que vem sendo apurado pelas autoridades. A existência da viagem e da participação societária na aeronave, por si só, não estabelece irregularidade no voo realizado por Flávio Bolsonaro.

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