Trump, o “tigre de papel”, por Rui Leitão

Presidente dos EUA, Donald Trump, em Washington - 06/01/2026
Presidente dos EUA, Donald Trump, em Washington - 06/01/2026. (Foto: REUTERS/Kevin Lamarque)

Quando vemos lideranças políticas que aparentam ser poderosas e ameaçadoras, mas que, na realidade, não são tão fortes quanto procuram demonstrar, costumamos chamá-las de “tigres de papel”. A expressão, de origem chinesa, foi popularizada internacionalmente por Mao Tsé-Tung, que a utilizou para caracterizar o imperialismo norte-americano.

Na contemporaneidade, a expressão parece ajustar-se ao perfil de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, especialmente em razão dos frequentes blefes e da retórica agressiva que têm marcado sua política externa e comercial. Seu discurso de força, muitas vezes, parece carecer de uma sustentação estrutural capaz de transformá-lo em resultados concretos. Afinal, em um mundo marcado pela interdependência econômica, ameaças unilaterais podem produzir efeitos contrários aos pretendidos por quem as formula.

Quando Washington ameaça a América Latina e volta suas atenções, com especial interesse, para o Brasil, o presidente Lula tem procurado manter uma postura altiva diante do unilateralismo do governo norte-americano e da tentativa de estabelecer, de maneira unilateral, as regras do jogo nas relações com o nosso país.

É uma posição que encontra respaldo na própria complexidade dos desafios contemporâneos.
Os chamados “tigres de papel” são, muitas vezes, lideranças ou projetos políticos que procuram compensar suas fragilidades com uma retórica de força. Historicamente, essa postura esteve associada a movimentos reacionários e autoritários, pouco afeitos à democracia e inclinados a impor seus interesses sobre outros povos e nações.

Durante décadas, os Estados Unidos exerceram uma posição de indiscutível predominância no sistema internacional. Entretanto, essa hegemonia passou a enfrentar limites cada vez mais evidentes a partir da década de 1970 e, posteriormente, com o fim da Guerra Fria, assumiu novas características. A ascensão econômica da China, o fortalecimento de outras potências e a ampliação dos BRICS contribuíram para tornar o sistema internacional mais complexo e menos suscetível ao domínio de uma única potência.

O problema de Trump parece estar justamente na tentativa de transformar a demonstração de força em instrumento permanente de negociação. Tarifas, ameaças e pressões diplomáticas podem produzir resultados imediatos, mas também podem estimular a reação de parceiros, fortalecer a busca por alternativas e acelerar a construção de uma ordem internacional menos dependente de Washington.

É nesse cenário que o Brasil precisa defender seus interesses nacionais com serenidade e firmeza. Não se trata de substituir uma dependência por outra, nem de escolher entre Washington e Pequim. Trata-se de afirmar a soberania brasileira e defender uma política externa capaz de dialogar com todos, sem submissão a ninguém.

No mundo multipolar que começa a se desenhar, poder não significa apenas possuir armas, dinheiro ou capacidade de impor tarifas. Poder também significa ter parceiros, credibilidade, capacidade de diálogo e disposição para construir soluções coletivas.

É nesse novo cenário que o rugido de Washington pode descobrir seus próprios limites. E é exatamente aí que o aparentemente poderoso tigre pode começar a revelar que, por trás do rugido, existe também muito papel.Donald Trump, Estados Unidos, Lula, Brasil, política externa, China, BRICS, mundo multipolar, relações internacionais.

 

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