Quatro décadas depois, juristas alertam: democracia brasileira vive seu teste mais duro desde 1988

Quarenta anos após a reconstrução democrática iniciada em 1985, a pergunta que reuniu juristas, professores, estudantes e representantes de várias academias paraibanas, nesta sexta-feira (28), no Auditório do EVA, no UNIPÊ, foi menos comemorativa e mais urgente: o que ainda sustenta a democracia brasileira — e o que hoje a ameaça?

A discussão, conduzida ao longo de um dia inteiro de programação, marcou o I Congresso da Academia Paraibana de Direito, que dedicou sua primeira edição a revisitar o percurso institucional do país, da ditadura militar ao presente digital, onde a disputa política se mistura com desinformação, novas formas de controle territorial e pressões sobre o sistema de justiça.

“A democracia resistiu — mas exige vigilância permanente”, diz conferencista

A conferência magna foi aberta pelo jurista Luiz Gomes, que resumiu a motivação do encontro: “Revisitar a história é mais que uma homenagem. É a única forma de compreender o que nos trouxe até aqui.

Tivemos avanços, tivemos ataques recentes ao Estado Democrático de Direito, mas a democracia brasileira demonstrou força. Resistiu. E isso só se explica pelo respeito às instituições e aos princípios constitucionais.”

Ao longo da fala, ele percorreu episódios centrais — do golpe de 64 à anistia, das Diretas Já à Constituinte de 1988, dos impeachments aos abalos recentes de 2018–2022 — e destacou o papel da universidade na tarefa de “dar capilaridade ao debate público” e recuperar a memória:

“Democracia não é ponto de chegada. É aprendizado cotidiano. E só se aprende quando se discute.”
Instituições presentes destacam risco cíclico de retrocessos

O encontro reuniu representantes de diversas academias — de Direito, Letras Jurídicas, Poesia e Medicina — que, cada um a partir de sua área, reforçaram a necessidade de recuperar a história democrática diante do cenário contemporâneo.

Para Josinaldo Malaquias, vice-presidente da Academia Paraibana de Direito, o espírito do evento se ancora na dialética: “Democracia não nasce do silêncio. Ela nasce da opinião, da contraposição e da síntese. O debate é ferramenta, não ornamento.”

Presidente da Academia Paraibana de Letras Jurídicas, o jurista Eitel Santiago Brito Pereira ressaltou que retrocessos não são capítulos isolados, mas tendências que reaparecem periodicamente:

“A história mostra que autoritarismos — de direita ou de esquerda — costumam vestir a palavra ‘democracia’ na fachada, mas retiram-na na prática. Por isso, lembrar 1985 é lembrar que a alternância de poder, o devido processo legal e as liberdades públicas não são negociáveis.”

Da Academia Paraibana de Medicina, o médico Wilberto Trigueiro levou ao debate a perspectiva pessoal de quem viveu o regime militar durante a vida universitária: “Só entende a importância da democracia quem já viu o que significa perdê-la. Reviver essa memória com os mais jovens é obrigação de todos nós.”

O desembargador Wolney de Macedo, acadêmico da ADP, que esteve representando a presidência do Tribunal Regional do Trabalho (TRT), reforçou o papel do direito como instrumento de equilíbrio social:

“A proteção social não é acessório da democracia. É parte da sua engrenagem. Sem ela, não há Estado democrático que se sustente.”

A presidente da Academia Paraibana de Poesia, Francisca Vânia, reforçou a dimensão cultural do tema:

“O escritor precisa conhecer a história do país para reconhecer as injustiças que atravessam a literatura e a vida. Ditadura jamais. Relembrar é evitar que se repita.”

Ainda pela manhã, a Academia Paraibana de Direito concedeu o Diploma de Honra ao Mérito à reitora do UNIPÊ, Profa. Dra. Mariana de Brito Barbosa, em reconhecimento à sua ampla contribuição para a difusão da cultura jurídica na Paraíba. A homenagem reforçou o papel da instituição na formação acadêmica e na abertura de espaços de diálogo que sustentam o debate democrático.

Tarde reúne panorama institucional sobre 40 anos de democracia

A programação da tarde reuniu especialistas que detalharam o papel das instituições na reconstrução do Estado Democrático de Direito.

Na mesa dedicada ao Sistema de Justiça, o juiz eleitoral Rodrigo Brito trouxe ao debate questões contemporâneas que hoje tensionam o processo democrático: a representação feminina e negra na política, o avanço da desinformação — “inclusive com deepfakes capazes de enganar até quem é treinado” — e a presença crescente do crime organizado como agente de pressão territorial sobre eleições locais.
Segundo ele, a Justiça Eleitoral tem sido obrigada a responder mais rápido e com mais tecnologia:

“Nosso prazo para retirar do ar uma propaganda falsa ou uma fake news é de 24 horas. O país inteiro olha para essa agilidade como referência. Democracia não se protege sozinha.”

Na mesa “O papel das Instituições de Ensino Superior na Redemocratização”, a professora Dra. Hélcia Macedo trouxe ao debate a função das universidades como espaços de produção de pensamento crítico e, sobretudo, de exercício cotidiano da democracia. Para ela, revisitar o processo de redemocratização implica olhar também para dentro das salas de aula, onde o país reaprende a discutir, discordar e construir consensos.

“Hoje foi um dia que nos fez revisitar a nossa trajetória, porque paramos para refletir sobre a redemocratização e, sobretudo, sobre o papel das instituições de ensino superior. Vivemos em um país cuja democracia é desafiada, passamos por uma crise institucional, mas também reconhecemos o quanto avançamos — especialmente no direito à educação e no acesso ao ensino superior. Ter espaço para o contraditório, para a argumentação própria, para o diálogo, é viver a democracia”.

Também participaram das discussões docentes do UNIPÊ e representantes da OAB, que reforçaram o papel da educação jurídica e da formação crítica dos novos profissionais para manter vivo o pacto democrático iniciado quatro décadas atrás.

Presidentes de academias e lideranças jurídicas nacionais enviam vídeo de saudação

O congresso também recebeu mensagens em vídeo de presidentes de academias jurídicas de diferentes estados, reforçando o caráter nacional do debate e a articulação institucional em torno da defesa do Estado Democrático de Direito. Enviaram saudações:

* André Meira – Presidente do Colégio de Presidentes de Academias Jurídicas do Brasil.
* Roberto Victor – Presidente da Academia Cearense de Direito e presidente de honra da Academia Brasileira de Direito.
* Wesley Amorim – Presidente do Instituto Jurídico Cearense.
* Manoel Jorge – Presidente da Academia Brasileira de Direito.

As mensagens ressaltaram a relevância do encontro na Paraíba e o papel das academias como espaços permanentes de reflexão crítica sobre o direito e a evolução institucional brasileira.

Presidente da APD: democracia como cristal frágil

Encerrando o encontro, o presidente da Academia Paraibana de Direito (APD), Boisbaudran Imperiano, retomou o eixo histórico-institucional que marcou o congresso:

“São quatro décadas em que a Constituição tem sido respeitada, apesar de alguns arroubos aqui e ali. Trazer esse debate é lembrar que vivemos um período de ditadura militar e que precisamos tirar lições daquele momento sombrio da nossa história. Como disse o professor Manoel Jorge, a democracia é um cristal frágil e exige cuidado permanente. É por isso que a Academia Paraibana de Direito reúne estudantes, magistrados, advogados, membros do Ministério Público e a sociedade: para reforçar a importância do contraditório, do devido processo legal e das liberdades fundamentais, elementos que simplesmente não existem nos regimes de exceção.”

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