HISTÓRIA DA REDEMOCRATIZAÇÃO NA PARAÍBA : O papel do Jornal O MOMENTO no Século XX e como ele ameaçou o NORTE e o JORNAL CORREIO, então líderes

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Em 1987, o empresário João Furtado, presidente da construtora ENARQ – a maior empresa de construção civil da Paraíba à época, recebeu a proposta para assumir o comando do Jornal O MOMENTO como compensação aos investimentos da empresa na construção dos prédios da TV Cabo Branco e do Jornal anos passados.

Vamos observar: o espaço físico do jornal era um adendo ao lado da maior empresa de comunicação audiovisual do estado no bairro de Tambiá. João Furtado, ao lado de seu sócio José Marques (Zezito) aceitaram a proposta.

Ato contínuo, na sede onde era a ENARQ – repito, a maior construtora da Paraíba, na BR-230, os dois empresários nos chamaram para reunião que definiria o rumo do jornal. De cara, João Furtado foi incisivo: “Queremos que você assuma o comando do jornal”.

De pronto, respondi: “Doutor João, desculpe. Não sou de fugir de desafios, mas preciso lhe dizer que nesta composição eu preciso assumir mais o Jornalismo. A dados desde momento, tenho outro foco, portanto, devemos chamar outra pessoa para assumir a gestão administrativa”.

Doutor João foi direto: “e então, quem você indica para fazer a gestão do Jornal?”. Direto também lhe informei: “O Sr coloca Goreti Zenaide como superintendente, no Financeiro Dra. Lourdinha e Jander Neves na Logística / distribuição dos jornais”. E assim foi feito.

A MAIOR ONDA

Há que ser dito que a conjuntura política no Brasil à época com o processo de redemocratização serviu de onda onde entendíamos ser a oportunidade única de construir caminhos diferentes, diversos e promissores.

Foi nesse caminho que o Jornal O MOMENTO assumiu pela primeira vez no jornalismo paraibano pós-abertura democrática a pluralidade de opinião e de enfoque político publicamente. Depois de argumentações convincentes, eis que abrigamos como vozes políticas permanentes representantes dos maiores segmentos e indicativos partidários.

Foi daí, por exemplo, que a linha editorial abrigava o então deputado federal Evaldo Gonçalves (PFL) – à direita assumindo espaço de Opinião, Haroldo Lucena (PMDB) – centro, também, a Igreja Católica, através do arcebispo Dom José Maria Pires, a esquerda com Derly Pereira (PT) e José Rodrigues (PC do B).

A rigor, desta forma plural e pública sem registro anterior, isso à época na história política do jornalismo paraibano – tudo por questões de efeitos conjunturais do país, pegou tanto positivamente que virou referência. O professor doutor em História, Jose Octávio de Arruda Melo, bem testemunha com diversos escritos e análises a fase épica nessa direção.

Na prática, quando convidamos o então neófito e brilhante Giovani Meirelles para editor-adjunto, impulsionando a editoria de Cultura ao lado do famoso Colunista e Produtor Cultural Carlos Aranha, também mudamos o tom de vez no tratamento do jornalismo com a modernidade da época.

Pela primeira vez, por exemplo, entrevistamos o presidente da República, José Sarney, em Brasília, fruto de articulação com Jose Neumanne Pinto e Augusto Marzagão.

“1964, um ano para não se esquecer na História” – foi a manchete em 1988 quando da consolidação da Constituinte Cidadã. Detalhe: em cores, novidade à época.

“ESSAS COISAS”

Poucas pessoas entendem ou conseguem dimensionar o papel que Carlos Aranha exerceu nesta fase do jornal, não só escrevendo a Coluna “ESSAS COISAS”, assim como o poeta extraordinário Marcos Tavares, mas introduzindo na abordagem cultural muito além de agendas de shows – o elemento reflexivo da filosofia e da política,
elementos distantes da abordagem jornalística da época. Ele inaugurou esse estilo. À época comportava isso e João Furtado nunca interferiu nos rumos editoriais sob nosso comando.

Aranha era um brizolista indormido, incansável nas suas articulações intensas, das quais invadíamos horas no terraço de sua mãe Antonieta na Bento da Gama, na Torre, entendendo como poucos os novos passos da história.

Esses e muitos outros testemunhos partilhados pela sabedoria ambulante de Giovani Meirelles, o irrequieto editor adjunto, nos fez conviver e aprender muito com Aranha ao longo dos tempos, em especial em O MOMENTO e também no CORREIO.

“ QUEM É ESSE KUBI”

O Jornal era tão plural a abrigar os diversos estilos de abordagens, tanto que, certa vez, recebi um telefonema do nosso presidente da API, Biu Ramos, me indagando como tínhamos aceito publicar textos do neocultural Kubitscheck Pinheiro em nossas páginas.

“Walter, esse rapaz escreve coisas diferentes, como abordando as novas tendências de forma intensa” – então, interrompi nosso presidente e dissemos: “presidente, é exatamente isso o que queremos, ir além do trivial e dos conceitos arcaicos”.

A CONCORRÊNCIA

Havia no jornal Correio um chefe de oficina chamado Bené. Endiabrado e muito articulado. Ele foi responsável por minha demissão posterior no Correio quando lá fui editor porque ele queria interferir nas manchetes das edições impondo modelo policial como regra. Falaremos oportunamente.

Como disse, ele foi também responsável por convencer a diretoria do Correio para se alinhar com o jornal O Norte e implodir o MOMENTO, que segundo ele à época, já estava chegando a superar o Correio em tiragem. Fechando a torneira da Secom ao jornal seria o início da implosão da concorrência, era a tese defendida.

O fato é que o governo Burity por pressão desses veículos, então super poderosos, deixou de anunciar no jovem jornal em ascensão na liderança, dando no que deu, no fechamento do periódico.

FALTOU ESPERAR

A ENARQ vivia de obras e serviços do governo e decidiu sacrificar o jornal em face de outras prioridades. Até cheguei a dizer a João Furtado, pois já era 1989: “segura a onda um pouco, pois Ronaldo Cunha Lima pode ser governador do estado e tudo isso passa”.

O tempo provou que essa janela histórica teria evitado o fim do importante e reformulador jornal conceitual do jornalismo paraibano.

O MOMENTO fez história.

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