600 famílias são retiradas de terreno durante reintegração em Campinas

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Ao menos 400 policiais militares, oficiais de Justiça e representantes de secretarias municipais de Campinas (SP) cumpriram a reintegração de posse na área denominada “Ocupação Mandela”, na manhã desta terça-feira (28), no Jardim Capivari. As 600 famílias, que ocupam o local desde julho de 2016, tentaram resistir com barricadas formadas com madeira e pneus.

Por volta das 8h30, houve um incêndio em barracos e barricadas em uma das entradas da ocupação, onde a maior parte da PM está concentrada. Minutos depois, um caminhão do Corpo de Bombeiros foi até o local e conseguiu conter as chamas.

Após mais de duas horas de negociações entre a polícia, parlamentares e os advogados dos moradores, às 9h os moradores começaram a sair com alguns objetos pessoais. Em seguida, a retroescavadeira da Prefeitura entrou na ocupação para começar a derrubar os barracos.

Ana Cláudia Moreira da Costa, de 29 anos, tem uma filha de 1 ano e 1 mês e saiu às pressas da ocupação. Segundo ela, os próprios moradores atearam fogo dentro da área por estarem revoltados.
“Estão ‘tacando’ fogo lá embaixo e tá arriscado os botijões de gás explodirem. Meu marido achou melhor a gente se retirar com ela por causa da fumaça também”, conta a mulher, que saiu da ocupação com apenas uma mala e um cachorro.

Ela conta, ainda, que morava na ocupação há sete meses e pretende voltar para o Parque Oziel, em Campinas, onde morava. Ela pagava R$ 550 de aluguel e a renda da família é de cerca de R$ 1,1 mil. O restante dos pertences da família serão retirados da ocupação ainda nesta terça.

‘Vou dormir na Prefeitura’
O agricultor Juscelino Ribeiro Carneiro Júnior, de 25 anos, deixou a ocupação apenas com algumas roupas. Ele morava havia 10 meses no Mandela, e garante que não tem condições de pagar aluguel.
“Não tenho para onde ir. Antes daqui, morava na rua. Agora eu vou para a Prefeitura, vou dormir lá. Só tenho a roupa do corpo.”

Na companhia de uma amiga, o agricultor disse que não conseguiu retirar os poucos bens que tinha no barraco. “Tem pessoas que precisam aida mais do que eu. Doei minha geladeira e saí só com minhas roupas. Agora ficou difícil para todos nós”, completou.
Fim da negociação

“Nós fizemos a negociação com os representants dos invasores exaustivamente e chegou-se à seguinte conclusão: eles estão retirando os materiais voluntariamente. Então, em princípio a reintegração está seguindo um curso de tranquilidade, de normalidade. Houve apenas aquele confronto incial. […] Num primeiro momento, nós não vamos precisar entrar. Assim que os moradores se retirarem voluntariamente, […] aí nós vamos entrar com os oficiais de justiça para confirmar a reintegração e encerrar a operação”, afirma o coronel da PM Marci Elber ao G1, no local.

Caminhões disponibilizados pela Prefeitura estão na área para transportar os pertences dos moradores.

Abaixo, assista à reportagem em vídeo com as primeiras informações do início da manhã.
Moradores de ocupação no Jardim Capivari, em Campinas, resistem a reintegração de posse

Um policial militar se feriu ao ser atingido por um artefato explosivo, segundo informações da EPTV, afiliada da TV Globo. Homens do Corpo de Bombeiros, Guarda Municipal, Samu e também da Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (Emdec), que cuida do trânsito, participaram da operação no local.
O helicóptero Águia da PM também dá apoio à ação. No início da manhã, já havia sido possível ver fumaça na área.

No decorrer da manhã, os policiais foram avançando aos poucos nas entradas da ocupação Nelson Mandela. Na foto abaixo, é possível ver as barricadas que haviam sido montadas pelos moradores e que foram ultrapassadas pela PM.

Recebidos com paus, pedras e explosivos
A polícia chegou nos arredores da ocupação do Jardim Capivari antes das 5h. Ao se aproximarem das entradas, os PMs foram recebidos com pedras, paus e alguns explosivos. O PM atingido se feriu levemente. Todos os acessos à ocupação foram cercados pela polícia.

Por conta da resistência, um grupo de parlamentares e advogados dos moradores se reuniram por volta das 7h com o coronel da PM Marci Elber para tentar uma solução pacífica para o cumprimento da ordem judicial nesta terça.

Vizinhos
Os vizinhos disseram que, no bairro, eles podem deixar as casas e seguir para o trabalho, por exemplo. Mas, ninguém pode entrar na área cercada pelos policiais nesta manhã. A imprensa está concentrada em um local atrás da barreira formada pelos PMs, uma área de isolamento.

População na ocupação
A reintegração foi pedida pela empresa Cerâmica Argitel Ltda, dona da área. Os manifestantes alegam que pretendem adquirir a área, que não seria ocupada há 40 anos. De acordo com os manifestantes, na ocupação existem 282 crianças, 141 adolescentes, 28 gestantes, 24 idosos, cinco cadeirantes e centenas de adultos.

Reuniões prévias
A Polícia Militar informou, por meio de nota, que participou de reuniões prévias com oficiais de Justiça, representantes e advogados dos moradores, além de vereadores para discutir a desocupação ao longo das últimas semanas.
Segundo a corporação, as reuniões serviram para os policiais informarem sobre a ação desta terça-feira, para explicar como seria feito para garantir a segurança dos oficiais de Justiça, e outras pessoas que atuam na reintegração.

O advogado dos moradores, Alexandre Mandl, disse que os moradores ficaram sabendo da reintegração pela imprensa e que dificultarão os trabalhos da polícia. Uma questão levantada pelo grupo é que não sabem para onde irão com a saída forçada.
“Não foram apresentadas questões de segurança para cumprir essa reintegração de posse, número de políciais, estratégias que serão adotadas. As famílias não foram comunicadas, ficaram sabando da reintegração pela imprensa”, disse o advogado.

Prefeitura
Secretário de Relações Institucionais da Prefeitura de Campinas, Wanderley de Almeida destacou que a área da ocupação é particular e que a reintegração foi solicitada pelo proprietário. Ele informou que a administração dará suporte às famílias que sejam identificadas em condições de vulnerabilidade social.
No entanto, o secretário afirmou que a prefeitura não possui uma área ou condições de abrigar todas as famílias da Ocupação Nelson Mandela, e que os casos serão tratados de maneira pontual, com quem comprovar que não tem para onde ir.

A pasta divulgou que 452 famílias foram cadastradas na Cohab e que está sendo feita uma triagem para ver quais podem ser enquadradas nos programas habitacionais do município.
A estrutura para mudanças de algumas famílias, que saíram com móveis e eletrodomésticos, ficou a cargo do proprietário do terreno.

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