O premiê britânico, David Cameron, afirmou nesta quinta-feira (5) que o Reino Unido tem evidências que provam que o governo da Síria usou armas químicas no ataque de 21 de agosto, que deixou milhares de mortos em uma área de Damasco, capital do país árabe.
“Olhamos amostras coletadas de Damasco em um laboratório britânico que provam o uso de armas químicas no subúrbio de Damasco”, disse Cameron à TV britânica “BBC”. Os testes para gás sarin foram concluídos nesta semana e, para realizá-los, foram usadas amostras de roupas e do solo do local do ataque, disse o premiê ao jornal “The Guardian”
Cameron afirmou que “crescem o tempo todo” as evidências de que o armamento químico foi usado pelo governo do presidente sírio, Bashar Assad. “A questão é obviamente convencer mais pessoas de que o regime foi o responsável”, afirmou.
Cameron, porém, disse “não ter mãos” para intervir na Síria, após o Parlamento britânico rejeitar seu plano para o país. O premiê criticou o Partido Trabalhista, que faz oposição a seu governo, por ter barrado no Parlamento um pedido de autorização de Cameron para participar de um ataque militar em represália ao uso de armas químicas pelo regime do presidente sírio, Bashar al-Assad. Segundo ele, a oposição britânica optou pelo caminho “fácil”, do ponto de vista político.
“A responsabilidade total e pessoal pela decisão recai sobre o Parlamento”, disse Cameron, que promete que seu país irá liderar pedidos de ajuda a refugiados e cobrar mais diálogos para resolver o impasse na Síria.
Inspetores das Nações Unidas foram até a Síria investigar as denúncias do uso de armas químicas, mas ainda não divulgaram suas conclusões.
Dois anos e 100 mil mortos
A guerra na Síria já dura mais de dois anos e deixou milhares de mortos –mais de 100 mil, segundo a ONU. Começou na esteira da Primavera Árabe, onda de levantes populares que pediu mudanças no governo em países como Tunísia, Líbia e Egito.
Como em outros países, a reação do governo sírio foi reprimir com violência os protestos por democracia. Desde o início, a postura do regime do presidente vitalício Bashar Assad foi desqualificar os opositores como meros terroristas e culpá-los pelas mortes ocorridas nos confrontos.
No dia 21 de agosto, a guerra síria ganhou outra dimensão quando gás tóxico foi usado para bombardear uma área de Damasco, causando a morte de pelo menos 355 pessoas, segundo a ONG Médicos Sem Fronteiras. A ONG estima ter realizado mais de 3.600 atendimentos de pessoas que inalaram gás. A oposição fala em mais de mil mortos no ataque e acusa o regime Assad pela matança; o governo sírio culpa os rebeldes pelo massacre e afirma que achou um depósito com produtos químicos usado pela oposição.
Há tempos, a comunidade internacional condena o confronto na Síria e pede seu fim. Só após o ataque com gás, o Ocidente decidiu intervir independentemente da ONU. Devido à pressão internacional, um time de inspetores da ONU foi enviado ao país para investigar o local do suposto ataque. A equipe, porém, não conseguiu chegar à região: um comboio da organização teve de recuar porque foi recebido a tiros quando se aproximava da área.
Fim da linha
Há um ano, o presidente dos EUA, Barack Obama, afirmou que o uso de armas químicas na guerra da Síria seria cruzar uma “linha vermelha”. Já houve relatos de uso de armas químicas no conflito antes – em maio deste ano, o jornal francês “Le Monde” relatou o uso de armas químicas no país.
Foi só após o ataque de Damasco, porém, que os EUA passaram a afirmar que a Síria passou do limite. O secretário de Estado americano, John Kerry, diz que os EUA não têm dúvidas de que o governo sírio atacou com gás seus cidadãos e destruiu as evidências. O presidente Barack Obama pediu o aval do Congresso para uma intervenção na Síria – que não envolverá o envio de tropas dos EUA, afirma o governo.
França e Reino Unido também condenaram o ataque e prometeram apoio – militar, no caso francês – aos rebeldes que lutam contra Assad. Porém, o Parlamento britânico rejeitou o plano de atacar a Síria, e o o premiê, David Cameron, recuou da intervenção.
O país mais frontalmente contrário à intervenção é a Rússia, que acusa o Ocidente de não ter provas do envolvimento do governo sírio no ataque de Damasco. Desde antes, porém, Moscou, que interga o Conselho de Segurança da ONU, votou contra intervir na guerra síria. A Rússia sempre defendeu uma solução diplomática para o conflito. China e Irã, em menor escala, também são contra.
